Humildade: reconhecer nossa indigência para servir.

Por Lucas Alves de Almeida
Seminarista da Teologia

HUMILDADE: reconhecer nossa indigência para servir.

1Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8“Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9e o dano da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”. Lc 14, 1.7-11

Refletindo sobre a Virtude da Humildade

À luz dessa passagem do Evangelho, queremos refletir a virtude da humildade.

São Bernardo nos ensina dois tipos de humildade. A humildade racional, na qual o homem, com seus próprios esforços, olha para papasi e reconhece sua miséria e a humildade infusa que nasce de uma outra luz, que não a racional, mas a luz divina que ilumina nosso mundo interior e nos mostra quem nós somos. Essa última é fervorosa, ardente, cheia de caridade.

O homem afasta-se de Deus justamente quando toma o caminho contrário ao da humildade. Adão e Eva pecaram por soberba. A serpente mostrou-lhes o fruto e disse: sereis como deuses. A vontade de querer ser deus longe de Deus, fora de Deus, sem a graça de Deus, foi a que deu origem a todos os pecados. Por trás de todos os pecados, está o pecado de soberba. Não há alma no inferno que não seja soberba, assim como não há no céu uma alma que não seja humilde. Os demônios, todos eles, são soberbos.

A humildade nos é necessária, porque é a soberba que nos arrasta para o inferno.

Deus nos ensina a Humildade

Em Seu plano de salvação, Deus utilizou-se da via da humildade:

6Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como um deus 7mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem 8abaixou-se tornando-se obediente até a morte, à morte sobre a cruz. 9Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome…”  Fl 2, 6s

O homem quis fazer-se grande, quis fazer-se um deus, e então o próprio Deus se humilha, se rebaixa, despoja-se de si mesmo numa kenosis, a fim de ensinar ao homem o caminho da perfeição.

Jesus é nosso modelo. Devemos imitá-Lo. “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.” (Jo 13, 13-15).

Diante de Deus, a nossa indigência

7Quem de vós, tendo um servo que trabalha a terra ou guarda os animais, lhe dirá quando volta do campo: ‘Tão logo chegues, vem para a mesa?’ 8Ou, ao contrário, não lhe dirá: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, até que eu tenha comido e bebido; depois, comerás e beberás por tua vez?’ 9Acaso se sentirá obrigado para com esse servo por ter feito o que lhe fora mandado? 10Assim também vós, quando tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: Somos simples servos, fizemos apenas o que devíamos fazer. Lc 17, 7-10

Sermos cristãos, não nos dá o direito de nos sentirmos melhores que os outros. Antes, exige de nós uma disponibilidade e prontidão a fim de servirmos a Deus e aos irmãos.maxresdefault

Somos simples servos” (no grego, ἀχρεῖοί que melhor se traduz por sem valor, inútil), expressão que causa impacto, que assusta, mas é assim que devemos nos reconhecer.

Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5) – diz Jesus. Nossa debilidade, nossa imperfeição, nossa indigência é manifesta sempre que o homem busca agir sem a Graça de Deus. Hoje, o mundo está a ignorar a Palavra d’Ele, a sua presença viva e real, o seu Amor. Se não nos acautelarmos, podemos cair no mesmo erro, e dizer-se cristão não passará de bela fachada. Seríamos “sepulcros caiados” (Mt 23, 27).

Por causa do pecado, estamos inclinados a buscar uma grandeza que não nos cabe. Isso é a soberba, que facilmente surge dentro das nossas relações, sutilmente nos distrai na caminhada e já não olhamos mais o mestre, mas buscamos reconhecimento para alimentar o nosso ego.

24Houve também uma discussão entre eles: qual seria o maior? 25Jesus lhes disse: “Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são chamados Benfeitores. 26Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve.  27Pois, qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve. Lc 22, 24-27

O pecado de soberba atenta diretamente contra Deus

Quando caímos no pecado, a alma logo sente-se ferida por ter-se afastado de Deus. O primeiro sentimento é o de vergonha pelo pecado cometido, que se segue de um sentimento de indignidade e arrependimento, transformado então em desejo de unir-se novamente à amizade com Deus.

Chamamos esse movimento de contrição, e só o temos pela virtude da humildade. O soberbo não é capaz de humilhar-se, de reconhecer seus erros, e isso dificulta seu retorno à amizade com Deus.

Os vícios capitais geram pecados e matam algumas virtudes (a gula atenta contra a temperança; a ira contra a mansidão; a luxúria contra a castidade), mas a soberba mata todas as virtudes. O pecado de soberba atenta diretamente contra Deus: é querer colocar-se no lugar de Deus.

Poderíamos ter todas as virtudes do mundo, mas sem a humildade, todas se tornariam desgraçadas e pervertidas. Lúcifer, por exemplo, sendo puro espírito, jamais pecou ou pecará contra a castidade. Lúcifer é castíssimo, mas não é capaz de ser humilde.

Maria, humilde serva do Senhor

Maria foi a humilde serva do Senhor, e por este motivo, ela é para nós grande exemplo. No Magnificat, ela “engrandece o Senhor […] porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1, 46.48). Ela fez-se um nada diante maedejesus800_2de Deus. Depois da humildade de Jesus, não há humildade mais perfeita que a de Maria.
Quando Deus olha para uma alma humilde, Ele sente-se apaixonado, seduzido. A alma humilde é capaz de atrair o olhar de Deus e Ele se deixa atrair por um coração humilde.

Deus foi atraído pelo nada de Maria, e se lançou nesse nada. Deus não resiste ao abismo de um coração humilde, e se lança. A humildade de Maria tornou-se escada pela qual Deus desce a nós, e nós subimos a Deus.

Precisamos assemelhar-nos à Maria, e diante de Deus, reconhecermos o nada que somos. Humilhar-nos em extremo, esvaziarmo-nos para atraí-Lo, e podermos nos unir perfeitamente a Ele que derruba os poderosos dos tronos e eleva aqueles que são humildes de coração (cf. Lc 1, 52).

A humildade de Maria foi, sem dúvida, a mesma humildade infusa que nos diz São Bernardo. É esta que leva as almas ao céu. Ela é a mais importante, ela é dom de Deus e por isso precisamos suplicar ao Espírito Santo, que Ele a derrame sobre nós. Estar na intimidade do Senhor, viver a Sua Vida, não desviar da oração, do colóquio diário com Ele, mas pedir sem cessar como aquela tradicional jaculatória, cheia de piedade diz: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante a Vosso”.

Ajude-nos nesta lida, a serva humilde do Senhor, a Virgem Mãe de Deus e nossa, para conseguirmos nos habituar na prática da humildade. Que nosso coração não queira engrandecer-se a si mesmo, mas esteja disponível para o serviço a Deus e aos irmãos, com alegria, com verdadeira humildade e, enquanto nos abaixamos para servir, Deus mesmo eleve nossa alma até o céu.

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