A possível relação entre a obra “ O Senhor dos anéis” e a Teologia Católica!

Por Diego Domiciano dos Anjos
Seminarista da Teologia

É incontestável o imenso sucesso alcançado pelos filmes da trilogia “O Senhor dos Anéis” no mundo todo, dirigidos pelo diretor Peter Jackson, são obras repletas de efeitos especiais, enredos envolventes, grandes atores, cenários e paisagens marcantes por conta de todos esses atributos a trilogia foi numerosamente premiada. Antes porém de todo o sucesso cinematográfico, “ O Senhor dos anéis” é em sua gênese uma obra literária de valor incalculável que saiu da pena de um grande talento literário e de uma alma profundamente Católica, John Ronald Reuel Tolkien, conhecido internacionalmente por J. R.R. Tolkien, foi um premiado escritor, professor universitário e filólogo britânico, nascido na África, que recebeu o título de doutor em Letras e Filologia pela Universidade de Liège e Dublin, em 1954, e autor das obras O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion .

É preciso salientar que apesar do ótimo trabalho realizado por Peter Jackson na trilogia adaptada para os cinemas, ela não esgotou todo o conteúdo contido nos livros, apesar de serem produções longas e bem detalhadas, assim para se aprofundar no conteúdo da saga é necessário recorrer aos livros, e assim de fato penetrar na essência da narrativa. Tolkien não pretendeu abordar explicitamente em sua saga a questão de Deus ou do cristianismo, porém toda ela está repleta de valores religiosos e católicos, como que um reflexo daquilo que ele trazia em seu coração como parte fundamental de sua constituição moral e até mesmo intelectual. A intenção principal do autor era escrever uma sagaSenhor dos Aneis 02 capaz de envolver os leitores em uma narrativa longa, de contornos míticos aos moldes clássicos, complexidade de detalhes, personagens e narrativas. Diferentemente de seu amigo pessoal e autor do renomado “As Crônicas de Narnia”, o escritor C.S. Lewis, que utilizava de analogias em suas obras, e onde a temática cristã de fundo é facilmente compreendida, de fato era esse o seu método para a realização de uma “apologia” ao cristianismo. O autor de “O Senhor dos Anéis” em suas cartas que estão acessíveis ao público, deixa claro que não usou de analogias em sua narrativa, antes era contrário ao uso delas “Há certamente um conflito entre a técnica “literária” e o fascínio de elaborar em detalhes uma Era mítica imaginária (mítica, não alegórica: minha mente não funciona alegoricamente). Tolkien deixa claro que não há alegorias em sua obra, porém de forma clara expõe a possibilidade de uma aplicabilidade: “De fato existe uma aplicabilidade das realidades cristãs dentro do senhor dos anéis”, ou seja, apesar de não ser o objetivo da obra, e de não estar presente de maneira explicita, é possível uma aplicabilidade dos valores cristãos, de fato a temática da saga, gira em torno do embate contra as forças do mal, a morte, o desejo de imortalidade, e a providência divina implicitamente presente que governa todos os acontecimentos.

Tolkien em uma carta responde à algumas perguntas feitas por um amigo sacerdote, e deixa de forma clara em trecho o fundamento cristão por de traz de “ O Senhor dos Anéis”

“O Senhor dos Anéis obviamente é uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconscientemente no início, mas conscientemente na revisão. E por isso que não introduzi, ou suprimi, praticamente todas as referências a qualquer coisa como “religião”, a cultos ou práticas, no mundo imaginário. Pois o elemento religioso é absorvido na história e no simbolismo. Contudo, está expresso de modo muito desajeitado e soa mais presunçoso do que percebo. Pois, na realidade, planejei muito pouco conscientemente; e devo mormente ser grato por ter sido criado (desde que eu tinha oito anos) em uma Fé que me nutriu e ensinou todo o pouco que sei; e isso devo à minha mãe, que se apegou à sua religião e morreu jovem, em grande parte devido às dificuldades da pobreza resultante de tal ato”.

“A Teologia, ciência sobrenatural que trata de Deus e de Suas obras na medida em que a Ele se referem como princípio e fim”1, assim define São Tomás de Aquino, com essa definição e com as palavras de Tolkien, é possível dizer que a aplicabilidade teológica e católica em o Senhor dos Anéis é realmente possível. A Terra Média é habitada por seres – como os hobbits e os elfos – que quanto mais vivem uma vida simples ou devotada para as coisas superiores, dão um exemplo da comunidade ideal, e de uma orientação para a perfeição, a beleza, a bondade e da unidade, de fato se ordenando para os verdadeiros bens e para um desígnio providencial de ordem sobrenatural, que ordena todas as coisas e que os conduz para aquelas que não são perdíveis. O poder emanado do anel a ser destruído corrompe aquele que o possui, e muitos durante a trama são tentados a possuí-lo um belo anel de ouro atraente para usar, a avareza é a marca característica da posse do “Anel do Poder”, que dá poderes extraordinários ao que o utiliza, mas vai corrompendo interiormente aquele que o possui, até torná-lo escravo seu, como ocorreu com “Gollum”, que é o retrato da destruição física e psicológica que o apegamento aos bens materiais acarreta a qualquer criatura. Essa corrupção só se vence com a virtude do desprendimento, como ocorre com os “hobbits”. O Sacrifício como o de Jesus Cristo na Cruz, para a salvação de todos, é demonstrado no diálogo final entre Sam e Frodo: “Mas – disse Sam, com lágrimas brotando nos olhos – achei que o senhor também fosse aproveitar a vida no Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez”. E Frodo responde “– Foi o que também pensei, antes. Mas meu ferimento é profundo demais, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele está salvo, mas não para mim.

Muitas vezes é preciso que seja assim, Sam, quando alguma coisa está em perigo: alguém precisa desistir dela, perdê-la, para que outros possam tê-la”.
De algum modo pode-se dizer que mais de um dos personagens de “O senhor dos Anéis”, trazem em si ou em algum momento da saga características cristológicas, como o sacrifício mencionado no trecho citado acima, que tem Frodo como centro e sinal do sacrifício de Jesus, mas em outros momentos a figura de Cristo se encontra na obra e em diversos personagens e situações onde é possível fazer um paralelismo, por exemplo quando “Gandalf” para defender a prosseguimento da missão luta com “Balrog”, e após todos pensarem que já não o veriam mais ele ressuscita, já não como o mago cinzento, mas como mago branco, para iluminar e trazer a salvação para o seus amigos. Seria importante mencionar, que o Papa Francisco já leu as obras de Tolkien e as recomenda para todos como uma boa literatura contemporânea, e chegou a utilizar as obras como em uma mensagem enviada as comunidades educativas de Buenos Aires na Argentina, enquanto era cardeal desta arquidiocese:

“Na literatura contemporânea Tolkien retrata em Bilbo e Frodo a imagem do homem que é chamado a caminhar e seus heróis conhecer e aplicar, apenas andando, o drama da escolha “entre o bem e o mal”. Mas é uma luta, acrescenta ele, em que não falta a dimensão do “conforto e da esperança”. “O homem no caminho – explica – tem dentro de si a dimensão da esperança: aprofunda-se na esperança. Em toda a mitologia e nessa história ressoa o eco do fato de que o homem é um ser ainda cansado, mas é chamado ao caminho, e se não entrar nesta dimensão desaparece como pessoa e se corrompe”.
Por fim, busquei salientar alguns poucos pontos diante da imensidão de possibilidades cabíveis de alguma semelhança entre a saga de Tolkien e a Teologia Católica assim como diluir qualquer tipo de preconceito para com essa magnifica obra, ou pelo seu autor, me inspirou as palavras do L’Osservatore Romano de 26 de fevereiro de 2003, o jornal do Vaticano disse que a obra de Tolkien mostra “uma espécie de teologia”. O Senhor dos Anéis fala através de imagens e sinais, e o autor conclui: “Quando a fé inspira um pensamento e a vida, não há necessidade de chamar a atenção para ela, ela brilha através de tudo. ”

Referencias:
- J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”- O Retorno do Rei
- J.R.R. Tolkien, Cartas
- Mensaje del cardenal Jorge Mario Bergoglio, arzobispo de Buenos Aires, 
a las Comunidades Educativas (23 de abril de 2008)

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