SEBECHLEBY - AUGUS 8: Holy Family. Fresco from year 1963 by Jozef Antal in st. Michael parish church on August 8, 2013 in Sebechleby, Slovakia.

A Jesus, por Maria, como José

 

A Jesus, por Maria, como José

 

Muitos de entre os profundos adoradores do Verbo – os santos – desvendaram-nos um dos grandes mistérios da vida espiritual: que entre Ele e nós há uma dulcíssima e necessária escada denominada Maria. De fato, “por meio dela desceu o Senhor do céu à terra, para que por ela os homens merecessem subir da terra ao céu”. Enumeremos duas razões pelas quais isso se dá.

              Primeira: tendo Deus querido começar e acabar as suas maiores obras – a união de nossas almas a de Cristo, a nossa salvação… – pela Virgem Santíssima depois de a formar, digo que é de crer que não mudará de procedimento em todos os séculos (Rm 11, 29). Ele é Deus e não muda nem nos Seus sentimentos nem na sua conduta”. Ora, Jesus escolheu tudo fazer através de Sua Rainha. Não Se encarnou sem a Sua permissão; não começou seus milagres públicos sem um pedido dEla, realizado nas bodas de Caná. Por isso, podemos dizer com segurança, junto com os santos: Deus-Filho quis se fazer totalmente submisso a Sua Mãe.

              Segunda: pelo grandioso, inefável, mistério da Encarnação, que hoje comemoramos, nossa amável Mãe se tornou a morada eterna de Cristo. Deus quis para sempre – porque Ele não muda Sua conduta! – se esconder, se encerrar, ser contido no seio espiritual de Sua Mãe e Senhora: “Maria é o Santuário e o Repouso da Santíssima Trindade, onde Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar a sua morada acima dos querubins e serafins”. Podemos pensar, segundo nos sugere Santo Afonso Maria de Ligório citando outro autor, que Jesus se fez como um ponto no centro da circunferência que é Maria.

Em verdade, não é só que Maria é a Porta do Céu (assim a chamam São Bernardo, S. Boaventura, S. Lourenço Justiniano, e muitos outros); é que servi-La e amá-La é a melhor e mais segura forma de conquistar, pelo amor, o Coração do Salvador. São Maximiliano Maria Kolbe nos diz que, a fim de nos dispormos a receber o maior número de graças possível, devemos “nos consagrar à Imaculada… esse é o meio mais perfeito, o que Jesus prefere, e o que nos concederá os mais abundantes frutos de graça”.

É fácil entender isso quando temos em mente que Deus-Filho teve por mais agradável ao Pai viver a maior parte de sua vida – em torno de 30 anos – servindo e obedecendo, como faz um filho perfeito, a Sua Mãe em Nazaré, do que pregando explicitamente o Evangelho, realizando sinais, etc. Se o Jesus é absoluta oblação ao Pai, então, para fazermos com excelência a vontade Desse, não é melhor imitarmos Aquele nos dedicando integralmente ao serviço dEla? É por isso que recomendamos vivamente ao leitor que se torne escravo de amor dessa gloriosa Senhora pelo método de São Luís de Montfort, tão querido por nosso falecido Papa e Santo, João Paulo II. Diz ele: “A doutrina deste Santo (de Luís de Montfort) exerceu uma profunda influência sobre a devoção mariana de muitos fiéis e sobre a minha própria vida.”.

Entretanto, não é precisamente sobre a devoção de Montfort a Maria que queremos discorrer nesse artigo, mas, aproveitando a proximidade das solenidades da Anunciação/Encarnação e de São José, desejamos tratar duma forma de viver a consagração total a Maria que nos torna genuínos imitadores de José.

Há, na vida espiritual, um fenômeno denominado “união esponsal”. Entendemo-lo facilmente olhando para um dos efeitos do sacramento do Matrimônio: em Cristo Jesus, os corações dos cônjuges se unem em um só coração (Gn, 2,24) pela força do Santo Espírito através da entrega mútua e amorosa dos esposos. Ora, nossa união com Deus também deve ser esponsal! É tão verdade isso, que Jesus apareceu a mais de uma santa para desposá-la pondo em seu dedo um anel de casamento (o caso mais conhecido é o de Santa Catarina de Sena).

Se a melhor forma de amar Jesus é por Maria, como fica Nossa Santa Mãe nessa relação esponsal que devemos ter com Seu Filho? Pois em São José encontramos a resposta: como ele, temos de desposar Seu Imaculado Coração com o intuito de, nEla e por Ela, desposarmos Cristo Jesus. Se nosso coração se une ao dEla, que é a Esposa de Deus, não haveremos nós também de nos tornarmos, ainda que em medida diferente e menor, esposos do Senhor? Logo, para os amantes de Maria, a imitação das virtudes de nosso patriarca José pode ser mesmo fundamental. Não trataremos delas aqui; antes, exporemos brevemente como dois santos da nossa Igreja – Santo Hermano José, da Ordem Premonstratense, e São João Eudes, fundador da Congregação de Jesus e Maria – viveram sua devoção à Rainha dos Anjos dessa forma.

A visão do Beato Hermano José, de Anthony van Dyck

A visão do Beato Hermano José, de Anthony van Dyck

Hermano desde sempre foi agraciado com uma profunda devoção por Maria. No ano de 1190, na Igreja do monastério em que residia, enquanto estava absorto em suas orações, viu-se repentinamente diante da Virgem, indescritivelmente bela, acompanhada de dois anjos. Hermano ouve um dos mensageiros divinos dizer ao outro: “Com quem nós devemos casar a Mãe de Deus?”. O outro responde: “Com quem, senão com este irmão?”. Então, tomando a mão direita de Hermano e a colocando sob a da Virgem Maria, disse o mesmo anjo: “Eu vos entrego esta Senhora como tua esposa, e de agora em diante vos chamarei José.”; Maria, por sua vez, entregou uma aliança a Hermano. Daí em diante, o Santo acrescentou “José” ao seu primeiro nome.

São João Eudes é mais conhecido pela sua devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria. O que nos interessa de sua vida é um contrato deveras especial que redigiu, datou e celebrou, por ele denominado “Contrato de Santo Matrimônio com a Beatíssima Virgem Maria, a Mãe de Deus”. Eis um breve trecho do documento:

              “Ó admirável e amabilíssima Maria, Mãe de Deus, Filha Única do Eterno Pai, Mãe do Filho de Deus, Esposa do Espírito Santo, Rainha do céu e da terra, não é de admirar que estejas disposta a ser esposa do último de todos os homens e maior dos pecadores. Nós sentimos a ousadia de escolher-Te desde nossos tenros anos a ser nossa incomparabilíssima esposa, e a consagrar totalmente nosso corpo, coração e alma a Vós. A verdade é que Vós desejais imitar a infinita bondade de Vosso Filho Jesus, que está disposto a ser esposo de uma alma má e pecadora.”

              “Como já demonstrastes tão grande bondade, ó mais caridosa de todas as criaturas, dignai-Vos aceitar as condições de nossa santa união que estou prestes a escrever neste documento. Ele servirá de contrato, ou melhor, de cópia do contrato, do qual eu imploro seja o Espírito Santo o notário, para que Ele possa gravá-lo em Vosso Coração e no meu com as douradas e indeléveis letras de Seu puro amor.”

Depois desta apaixonadíssima introdução – em que o santo faz questão de ressaltar a vontade do Cristo de desposar nossas almas -, João Eudes passa a elencar, em cláusulas, as condições do seu matrimônio com Maria. Eis uma delas que muito bem ilustra a natureza dessa devoção:

A visão do Beato Hermano José, de Anthony van Dyck

São João Eudes

São João Eudes

              “Assim como o esposo e a esposa devem viver juntos na mesma casa, também eu desejo residir convosco (isto é, com Maria) no amabilíssimo Coração de Jesus, que é também o Vosso Coração. Conceda que eu nunca O deixe, eu Vos imploro, e que outra morada eu não tenha no tempo e na eternidade.”

Tendo fundamentado a devoção de que falamos na vida dos santos, queremos, para finalizar, dar – sem pretensão de esgotar o conteúdo -, um fundamento escriturístico a ela.

As Sagradas Escrituras, em alguns dos chamados livros sapienciais, falam de uma Sabedoria que tem características de uma pessoa, é personalizada. O Espírito Santo, seja pela liturgia da Igreja, seja pela boca dos santos e dos papas, nos ensina que essa Pessoa pode ser entendida como nossa virginal Mãe. Pois vejam o que o rei Salomão diz dEla no livro da Sabedoria: “Eu a amei e procurei desde minha juventude, esforcei-me por tê-la por esposa e me enamorei de       seus encantos.” (Sb 8,2).

Ora, segundo Aaron Joseph, autor espiritual contemporâneo, esse casamento mencionado por Salomão foi vivido em plenitude por São José, que se tornou, por conta dele, “(…) uma imagem da velha Jesualém. Assim como o templo do Senhor ficava no coração dessa cidade de Davi – Jerusalém -, contendo o Santo dos Santos, de maneira similar, no coração de José, filho de Davi (Mt 1:20), através de sua relação esponsal com Maria, está este Templo Imaculado do Senhor (Maria), cujo coração contém o Espírito e a Luz de Cristo. Logo, José, em sua relação esponsal com Jesus, por Maria, se torna (…) modelo para a Igreja. 

Nestes tempos de tribulação, vigorosamente exortamos a todos que ousem tomar o exemplo de José a sério e se aproximem da Virgem não apenas como Mãe, mas como Esposa; amem-nA como Santo Anselmo, que rogava isto a Ela: “Desfaleça o meu coração… por ininterrupto amor a vós, derreta a minha alma”, pois sabia que Ela não pode deixar de amar os que A amam – Eu amo os que amam a mim (Pr 8, 17) -, e que é pura compaixão e esperança (Eclo 24, 24-25) para conosco,  porque “nada tem de áspera” – diz São Bernardo – “nem de indiferente; nada de severa, é toda suave e a todos oferece o mais humano abrigo” ; afinal, Ela mesma nos diz: “Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos; pois meu espírito é mais doce do que o mel, e minha posse mais suave que o favo de mel” (Eclo 24, 26-27).

 

¹Maria de Ligório, Santo Afonso. Glórias de Maria. Editora Santuário.

²De Montfort, São Luís. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Primeira Edição Popular do Serviço de Animação Eucarística Mariana.

³Idem ao 1.

⁴Lembremo-nos que consagrar significa, aqui, “dedicar-se ao serviço”: o homem consagrado é destacado entre outros para entregar-se totalmente às ordens daquele a que se consagra.

5Manteau-Bonamy, HM. Immaculate Conception and the Holy Spirit. Libertyville: Prow., 1977.

6Carta do Papa João Paulo Ii às Famílias Monfortinas sobre A Doutrina Do Seu Fundador

7Site brasileiro da Ordem, para os interessados: http://norbal.org.br/quem-somos/os-conegos-regulares-premonstratenses/

 8O original, em inglês, pode ser encontrado aqui: http://www.liberius.net/livres/Letters_and_shorter_works_000000346.pdf

 9Para prova-lo, citamos aqui dois papas: Pio XII, no item 5 da Bula “Ineffabilis Deus”; e Bento XVI, no livro “A filha de Sião”. Segue trecho deste, retirado do “Explorations in the Theology of Benedict XVI: “Do ponto de vista do Novo Testamento, Sabedoria refere-se, por um lado, ao Filho como o Verbo, no qual Deus cria, mas, por outro, à criatura, ao verdadeiro Israel, que é personificado na humilde donzela cuja toda existência foi marcada pela atitude do fiat mihi secundum verbum tuum.”

10Retirado, em 24/03/2020, do artigo “To Jesus, Through Mary, in the Spirit of St. Joseph: The Wheat, the Rose, and the Lily”, encontrável aqui: https://www.hprweb.com/2013/10/to-jesus-through-mary-in-the-spirit-of-st-joseph-the-wheat-the-rose-and-the-lily/#fn-7652-6

 11  De laud. Virg., lib.11, em “Glórias de Maria”, já citada, agora como na edição da “Minha Biblioteca Católica”

12Trecho do “Sermão das Prerrogativas” livremente traduzido e retirado da obra “Vida y milagros del dulce doctor y padre de la Iglesia San Bernardo, abad de Claraval”, por Eugenio del Coral; editado e impresso por D. Isidoro de Hernandez Pacheco.


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