Homilia: Ele chamou Maria! (Lc 1,26-38)

A cena evangélica se passa em Nazaré, uma aldeia pequena, modesta e insignificante, aos olhos de todos daquela época. Nunca fora citada no mundo veterotestamentário, tampouco fora palco de manifestações reais ou teofânicas. Situava-se geograficamente na Galileia, donde os mestres de Israel afirmavam: “Da Galileia não pode vir nada de bom”.

Mas, aí habitava uma moça pobre, simples e que estava no primeiro estágio do matrimônio hebraico, na fase dos “esponsais”, isto é, momento em que um se prometia ao outro e tal pacto já simbolizava união completa, embora ainda não tivessem firmado, em cerimônia, o compromisso definitivo. O pacto já existia, mas o ritual matrimonial ainda não se realizara.

Foi neste intervalo cronológico que Deus visitou a moça simples e desprovida de Nazaré. Seu nome todos conhecem. Como toda jovem de sua época, Maria tinha sonhos, planos e metas. Na condição de boa judia, sabia que precisava ter, o quanto antes, seu lar, ser fecunda em filhos e cultivar no coração o dom precioso da fé e do respeito pelas tradições da Torá.

Até que certo dia, Deus resolveu passear por aquele vilarejo e fitou seus olhos em Maria. Com ela dialogou, através do Anjo, propôs-lhe uma missão, fez-lhe um convite e acreditou, decididamente, em seu sim. E por quê? Exatamente porque Deus percebeu que nos escombros da vida pacata, pobre, desprovida e simples, havia um coração do tamanho do mundo. Por detrás daquela beleza informe e rude, pululava um coração manso, decidido, resolvido e maduro.

Deus nunca deixou de andar pelas estradas do nosso mundo. Isso Ele sempre fez e continuará fazendo. Quer apenas encontrar espaço, em nosso espaço interior. Pouco importa a largura ou estreiteza da rua, avenida e bairro que moramos. Ele quer só, e somente só, encontrar em nós o que percebeu em Maria: disponibilidade.

Ao passar, Ele nos convocará e poderá pedir que lhe façamos muitas coisas, tal qual pediu a Maria. Como também, poderá não pedir nada a nós, a não ser fidelidade, tal qual fez com Davi. Pois, Deus é assim: Ele pode tirar o homem da lama, mas, nem sempre, o homem estará disposto a exaltá-lo para além das nuvens dos céus. Ele tudo pode sem nós, mas nós nada podemos sem Ele.

Celebrando o quarto domingo do Advento, que tal se aproveitássemos essa liturgia para abrir nosso coração e, como Maria, ficássemos totalmente disponíveis ao Senhor que passa? Que tal se permitíssemos que Ele, ao passar, rompesse com nossos pobres e desumanos esquemas, alargasse as estreitas vielas dos nossos sentimentos e ferisse nosso mortal orgulho?

Afinal de contas, para celebrarmos bem o Natal do Senhor faz-se necessário se apequenar frente a Deus que passa, chama e interpela. Peçamos à Senhora de Nazaré, Mãe de Jesus e nossa Mãe, essa graça.

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