Dar e receber os talentos! (Mt 25, 14 – 30)


Muito provavelmente, encontramo-nos diante de um contexto histórico que data do fim do primeiro século (década de 80). Instalaram-se, na comunidade cristã, os piores sentimentos: fartura de mediocridade, profundidade no comodismo, velocidade na frieza. Os cristãos estavam fartos de esperar uma única coisa: a segunda vinda de Jesus. Este não voltou e, consequentemente, o amor e o brilho, empolgantes no início, perderam-se na penumbra negativa que por ora a comunidade cristã passava.

Ora, o que fazer para reaquecer o entusiasmo dos crentes? Que iniciativa pastoral seria suficiente para reavivar a fé dos irmãos? Que atitude tomar para que eles reassumissem o compromisso de continuar construindo o reino? É para responder a estes questionamentos que Mateus reelabora “o discurso escatológico” de Marcos, capítulo 13, e compõe, então, uma exortação nova dirigida aos cristãos.

O que significa receber um ou mais talentos? Receber um talento, para o mundo judaico, é comparado a ser presenteado com uma fortuna. Historiadores incontáveis afirmam que um talento seria equivalente a seis mil denários de pratas. A disposição do senhor de distribuir o quanto e como quer não é ambígua, afinal ele confia nos seus subalternos e espera destes, consequentemente, uma resposta positiva.

Pelo batismo, todos nós recebemos um ou mais talentos, Deus nos presenteou com a fortuna da vida, com um elã da liberdade, com a força vivificadora das nossas decisões, mas também, com a capacidade mortífera de amedrontar-se, esconder-se e esterilizar-se. Nascemos para dar frutos, entretanto, diversas vezes, somos mais infrutíferos no exercício da administração do nosso eu, do que frutíferos.

Que significa a advertência pronunciada pelo Senhor: “Servo mau e preguiçoso…!”? O peso da voz que grita não é munido por um sentimento de ódio ou raiva, mas o Senhor é conduzido por um sentimento de indignação. Ora, o servo não recebeu uma semente, nem tampouco uma lembrancinha qualquer; antes, recebeu uma fortuna e esta ficou parada o tempo inteiro porque aquele que a recebeu não quis fazer render o que gratuitamente fora colocado em suas mãos.

De modo singular e coeso, o episódio evangélico nos disserta a frustração do Senhor. E esta se deu pelo simples fato de apostar no criado e não receber provas do investimento que fizera por ele. Será que sabemos que Deus aposta em nós? E temos consciência do tamanho da herança que Ele nos deixou? Como temos administrado estes talentos? O primeiro deles, não esqueçamos, é a fortuna da vida!

Para o capitalismo, produzir é quantificar em proporção, mas para o cristianismo produzir é amar. Para o primeiro, produzir é render, para o segundo é ser fecundo. De que modo nós fazemos frutificar o que do Senhor recebemos gratuitamente? Uma empresa improdutiva tende a fechar; uma vida estéril tende a morrer. E, depois desse processo todo, nós nos depararemos com a frustração do Senhor que acreditou e não foi correspondido, que confiou e foi traído, que apostou em nós e perdeu a aposta que fizera. É natural o criado frustrar-se, decepcionar-se, ferir-se. Porém, esses mesmos sentimentos não deveriam ser atribuídos Àquele que é o nosso Tudo.

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