Homilia: Ver e acreditar: Ele vive!  (Jo 20, 1 – 9)


Hoje, a Igreja vive em sua liturgia o tempo da Páscoa. Diante dos nossos olhos, é-nos apresentada uma narrativa de cunho, muito provavelmente, histórico, pois a cena inicial disserta a presença de mulheres, que naquela época não eram habilitadas para dar testemunho jurídico.

O ambiente contextualizado apresenta verbos de ação, cenas contrastantes, personagens apressados e preocupados e, diante disso tudo, toca-se o núcleo da mensagem evangélica, quando se reconhece nela a profissão de fé Pascal: “Viu e acreditou” (v. 8).

Três pontos, a nosso ver, constituem as colunas do presente texto evangélico:

  • Maria de Magdala: com esta personagem, oriunda da pequena cidade de Magdala, situada a sudoeste de Cafarnaum, às margens do lago de Tiberíades, embora de origem humilde, foi a primeira a demonstrar afeto por aquele em quem acreditava. Maria, popularmente chamada por Madalena, rompeu o comodismo, a habitualidade, e, movida por amor, não teme procurar, como que às apalpadelas, o seu amado. Afeto demonstrou também quando confessou: “Levaram o meu Senhor do túmulo”, e não “o cadáver”. O que significa isto? Quando se ama, devota-se amor, ainda que o amado esteja na penumbra da morte.
  • Pedro e o outro discípulo: ambos, de acordo com o texto, correm juntos, “mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo”. Afirmar uma rivalidade entre os dois seria apoiar-se em hipóteses superficiais e que desconhecem completamente o texto. No fundo, seria preciso ler o capítulo posterior, para entender que cada um recebeu a sua missão. Pedro entrou no túmulo, contemplou o cenário e nada comentou. O mais moço, popularmente chamado de “o discípulo amado”, entrou depois, contemplou e acreditou. Seria o segundo superior ao primeiro? Certamente que não! É que Pedro recebera o dom da jurisdição e João o olhar atento, veloz, afável e pastoral. O fato é que tanto para um, quanto para outro, a máxima foi despertada no coração: “Non est hic” – não está aqui. E ambos, como colaboradores de Jesus, incentivam as comunidades cristãs a abrirem-se rumo ao infinito, a buscarem o Vivente, Jesus ressuscitado.
  •  Viu e acreditou: Esta expressão constitui o ponto culminante do Evangelho, pois, é a fé Pascal. O que significa ver e acreditar? Para além de todas as construções teológicas, isso supõe um dado de amor. Quem viu e acreditou? Aquele que chegou primeiro ao sepulcro; aquele que foi o primeiro a entrar nele; o que intuiu em primeiro lugar o sentido do acontecimento; que ultrapassou o ordinário da cena (sepulcro vazio) e, mesmo assim, acreditou (na ressurreição). Alguém, com atitudes como estas, só pode ter sido agraciado pela fagulha chamejante do Ressuscitado. Se olharmos ao nosso redor, veremos inúmeras pessoas com características semelhantes às do discípulo amado. Para tanto, é preciso ser pobre em espírito, fiel ao chamado e crente apaixonado pela verdade da Palavra.

Neste domingo Pascal, com Madalena de Magdala, podemos aprender que, na esfera da fé, deve haver sempre espaço para os afetos. Com Pedro e o outro discípulo, aprendemos que, quando se busca o mesmo objetivo e se corre rumo ao mesmo ideal, não existe classificação numérica entre primeiro e segundo. Antes, existe um Deus amoroso que doa seus dons de modo livre e resoluto: a uns concede o jurídico, a outros concede o sensível, e ambos são ferramentas eficazes na construção do Reino. E, por fim, com a expressão “Viu e acreditou” aprendemos que, na vida, ver de verdade é enxergar para além dos olhos da carne e chegar ao patamar do Espírito. E assim, começaremos bem o tempo da vida que nasce e renasce, conhecido por tempo Pascal.

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