Homilia: São amigos ou adversários?  (Marcos 9,38-48)

 

O relato proposto pelo evangelista Marcos é iluminador, singular e decisivo. Os discípulos viram um fato que os incomodou enormemente: um desconhecido expulsando demônios em nome de Jesus. Repentinamente, Jesus os repreende, dizendo-lhes: “Não o proibais, porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois falar mal de mim”.

Por um lado, temos a pretensão da comunidade particularizada e tonificada no personagem João. Sim, a comunidade agiu de modo egoísta, por um dado momento, acreditando que Jesus e o Reino de seu Pai seriam propriedades exclusivistas e estreitas, pertencentes só, e exclusivamente, a um grupo, a um credo, e a um círculo.

Por outro lado, respondendo desse modo, Jesus ensina para os seus discípulos que o Reino é uma realidade sempre maior e, qualitativamente, ele não se rende a filosofias, nem tampouco a pessoas. Neste, o dono por excelência é Deus e o seu único mediador é Jesus, a quem o Pai constitui Senhor e autor da redenção humana.

Lamentavelmente, ainda hoje, somos tentados a ver o outro, pela simples razão de professar um credo diverso do nosso, como nosso inimigo ou adversário. Quando, na verdade, ele também é o nosso irmão. Ou quebramos os laços estreitos ainda cultivados na atualidade, fruto de uma catequese fracionada e estreita, ou jamais viveremos radicalmente o pedido de Jesus na cruz: “Pai, que todos sejam um!”.

O sonho de Jesus é que, em sua comunidade, o bem pelo outro e a preocupação pelo outro, na sua totalidade, constituam o maior interesse. De tal modo que a acolhida sincera, o sorriso generoso, o abraço fraterno sejam estímulos e testemunhos para aqueles que ainda não se encontraram em uma comunidade.

E, para que isto aconteça, não é preciso fazer muito, tampouco realizar projetos incalculáveis, se os protagonistas do Reino forem como crianças. Os feitos devem ser tão singelos, simples e pontuais como o são os gestos realizados por um pequenino: dar um copo de água por amor, a quem lhe pedir.

Ora, mas, neste caso, um simples copo de água poderia tornar alguém protagonista na comunidade do Reino? A água, em si, não! Porém, a água dada com amor e ofertada de modo desinteressado, sim! A partir de então, os discípulos entenderam que fazer o bem, na dinâmica do Reino, não é fazer muito, mas é fazer com amor, tudo o que deve ser feito.

Quantos sorrisos são distribuídos sem amor, quantos abraços são dados por um mero protocolo familiar, quantas vezes estendemos a mão por um singelo ato de educação? Sem deixar de tomar tais iniciativas, que tal colocarmos em todas elas a fagulha ardente e eficaz do amor?

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