Retribuição ou Conversão? (Lc 13,1-9)

De acordo com o contexto histórico-catequético desta passagem bíblica, Jesus está em viagem, e sabe que é hora de pagar duros e altos pedágios: “Senhor, estais sabendo que Pilatos mandou derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam?”. No fundo, a intenção dos interlocutores era: “Senhor, vede como estes homens eram maus, pecadores, por isso, mereceram tal paga”.

O lamentável é que todos nós, de certa forma, já vestimos a camisa destes imaturos interlocutores. Sabem aquele momento em que conjeturamos: “Olha lá, a filha de fulano. Fugiu! Filha minha não foge!”; ou ainda: “O vizinho está padecendo para viver. Bem feito! Quem mandou gastar tudo sem juízo? Quanto a nós, estamos numa boa!”; “Estão sabendo do filho de beltrano? Ainda não? Acabou de ser atingido fatalmente na cabeça. Bem empregado! É para ele sentir a dor que, no passado, sentiu a mãe da moça que ele desonrou!”… E assim, vamos levantando e sustentando nossas malditas lucubrações!

O Evangelho de hoje toca, incisivamente, nestas questões: fatalidades podem acontecer, maldições podem nos visitar, doenças podem nos atingir; não estamos livres dos males, dos percalços, das intempéries, não. Ainda que tudo isso aconteça, tais ocorrências não passam do plano físico.

Jesus, enquanto semente madura e livre do Pai, alerta-nos: “Há um perigo do qual não é bom participar; há um patamar que não tolera brincadeiras: este é o espiritual”.

Para uma anciã, atropelada na esquina da própria casa, há jeito. Para o cão espancado, há remédio. Para uma dívida, irresponsavelmente construída, há chance de negociação. Até para a corrupção que respiramos, no Brasil, há saída.

Jesus, sondando o coração e, ao mesmo tempo, a imaturidade presente neles, respondeu-lhes: “Se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. O que significa esta sentença? Os que foram acometidos pelas tempestades desta vida não são piores do que nós, que aparentemente não temos nada.

E Jesus, com isto, derruba a maldita teoria reinante na cultura judaica: a “teoria da retribuição”. Para esta, todos os acometidos por uma doença, ou foi pelo tamanho do seu pecado, ou ainda, por causa dos pecados dos pais. Isto não é verdade!

Para Jesus, é tranquilamente possível que um enfermo, mesmo no auge da sua dor, na humilhação da sua doença, na degradação por causa das suas feridas, entre pela porta central do céu. Porque a doença pode nos tirar tudo, menos a fé. Enquanto que um “malhado”, vaidoso, valorizado aos olhos do mundo, não consiga lá entrar, por achar-se pronto e preparado.

Não percamos de vista a verdade antiga, e sempre nova, que “todos os homens precisam se converter, quer sejam altos ou baixos, ricos ou pobres, brancos ou negros, cristãos ou não; todos precisam se abrir, num dado momento da vida, à μετάνοια, isto é, à conversão que o Pai nos propõe na pessoa do seu Filho”.

Pe. José Ancelmo Santos Dantas – Coord. da Feira Vocacional