Homilia: Permanecei em mim! (Jo 15, 9-17)


Encontramo-nos diante de um texto evangélico todo singular e bastante, sobretudo porque toca na essência da vida cristã: “Permanecei no meu amor”. Eis a palavra de ordem de Jesus para os seus discípulos. Ciente de que os discípulos enfrentariam muitas tribulações, incompreensões e cruzes, Jesus encontrou, no dom do amor, a única via e o perfeito caminho para viver e ser feliz.

Este amor proveio do Pai, por isso, ele é mais que uma doutrina, de algum modo, mais que um mandamento ou norm. O amor ensinado e exigido por Jesus é, antes, condição de vida. Este tema era frequentemente pregado nas primeiras comunidades cristãs. A mensagem evangélica nunca pretendeu intimidar, condenar, nem tampouco selecionar eleitos e puros, de condenados e impuros.

Hoje, espremidos por mil e uma ferramentas de moralidade, usamos o evangelho para condenar, para tecer chavões apocalípticos e sentenças intimidadoras. Estas não prendem mais a atenção dos fiéis. Ao contrário, caberia regredir, no tempo e no espaço, não para estacionar, senão para espelhar-se na condução e no crescimento das primeiras comunidades cristãs.

Lá, o amor era vida, pois, a alegria de um era suficiente para rejuvenescer a tristeza coletiva de muitos, ao passo que a dor de alguns se tornava a dor de todos. Lá, nunca se confundiu liberdade com libertinagem. Todos sabiam seu lugar, sua missão e sua vocação, pois, o que importava mesmo era cultivar a chama do amor. O amor deixava a comunidade mais jovem, o líder mais servo, o novo mais maduro, o pecador mais santo e o santo mais humano.

Lamentavelmente, o amor, tal qual pregado por Jesus, foi substituído por sermões moralistas e fatigantes, deixando ao fiel a impressão de que Deus é matemático, calculista e justiceiro. Precisamos romper com o medo que esfria, desumaniza e atrofia. Quantas pessoas têm medo de experimentar o amor de Deus, pregado e anunciado por Jesus!

Jesus passou na terra fazendo o bem. Isso significa que ao passar deixou saudades e não feridas, nas incalculáveis vidas que com Ele se encontraram nos caminhos da Galiléia.

E, nós, por onde passamos, que imagem de Deus deixamos impressa na vida dos outros? De um Deus bravo, justiceiro, moralista e birrento? Ou deixamos a imagem do Deus de Jesus Cristo? Deus amor, ternura, mas reto e justo, capaz de contrair-se para resgatar e salvar o que se perdeu?

O amor de Deus, expresso em Jesus, é um amor alegre! Sim, desde o início, tudo foi presidido com muita alegria, seja nos campos com pastores ou nos centros. Que tal, celebrando esta liturgia dominical, pedirmos a Deus a graça de amar e de permanecer Nele, do mesmo modo que Jesus, seu Filho, permaneceu?

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