O Valor da Humildade! (Lc 14, 1.7-14)

O que fazer quando se sabe que o fim está próximo, que o caminho se estreita, que o sol está se pondo, que a situação parece escorrer das próprias mãos? O que fazer quando parece que todos resolvem nos abandonar, que o trem já vislumbra sua última estação? Que fazer quando sabemos que temos muito para dizer, mas que o tempo é breve e tênue, e que, portanto, não cabem muitas palavras, nem sermões, apenas convivência e doação?

Eis o dilema de Jesus! Por um lado, Jerusalém já podia ser contemplada, mas por outro, a fome dos homens por querer matá-lo crescia cada dia mais e, no vagão do seu próprio Eu, embora existisse muita riqueza, Ele sabia que precisava correr contra o tempo, eleger coisas principais, abandonar as triviais, para deixar aceso e vivo o Núcleo da sua Mensagem.

Hoje, a Palavra de ordem é Humildade! Uma palavra profundamente esquecida e relegada na sociedade atual, mal entendida por muitos filósofos e poetas. Erroneamente, ensinaram-nos que humildade é tática de espírito desprovido, de intelecto sem luz, de gente sem ferramentas; quando na verdade humildade só existe em corações que descobriram o seu real lugar no mundo. Um recipiente humilde conta com o equilíbrio certo e fecundo, maduro e perspicaz do amor de Deus.

Quem na vida já presenciou faculdades concedendo certificados de humildade? De amor? De paciência? E por que não o fazem? Exatamente porque nem a riqueza dos livros, nem a arte da sabedoria humana podem conceder, por si mesmas, o escudo da humildade a um coração. Este, carrega no peito, quem desde cedo, através de uma saudável catequese, entendeu que na vida há um lugar que é próprio e outro que é de Deus. Que nós somos apenas criaturas, Ele, no entanto, é Criador. Que uma vida bonita, geralmente, requer normas e cultivo de valores, que a exceção jamais pode ser regra, que o pecado nunca será, em si mesmo, amor: só Deus, por bondade de coração, pode transformá-lo e nós, com humildade refinada, podemos percebê-lo.

Ah! Quem dera passasse em nossa cabeça um grande filme, de modo que pudéssemos assistir quantas pessoas que na vida já encontramos e cuja virtude (humildade) lhes é bem peculiar. A figura da mãe, que gentilmente acorda nas madrugadas frias para acalentar seu bebê; a figura do pai, que humildemente corre contra o tempo para fazer valer suas obrigações; a figura frágil do aposentado que ganha o mínimo e, com uma generosidade do tamanho do Céu, divide com muitos, e ainda, sobra.

Hoje, vivendo num mundo secularizado e egoísta, onde tudo é produção e capital, máquina e lucro, falar de humildade chega a ser escândalo!  Mas, lembremo-nos: quanto mais nos envolvemos na dinâmica maldita e desumana do acúmulo desnecessário e da sobrevivência submissa, tanto mais passaremos a vida como meros escravos e não como sujeitos.

Qual foi o segredo dos nossos antepassados que tinham pouco e com o pouco que tinham podiam dividir com alegria? É que eles, logo cedo, descobriram que: “o pouco com Deus é muito”, “beleza não põe mesa”, “mais vale um punhado de pães conseguidos com valor e grandeza de espírito do que mesa farta com falcatruas” e que “se formos fiéis no pouco Ele nos confiará mais”.

Irmãos, que tal se nessa Celebração sentássemos na cadeira da humildade e, juntos com Jesus, o servo fiel e terno do Pai, aprendêssemos que os maiores brilhos estão escondidos nas mais duras pedras?

Pe. Ancelmo Dantas – Coord. da Feira Vocacional / Pastoral Vocacional