Homilia: O nosso lugar na Paixão de Jesus!  (Mc 14, 1 – 15.47)

Caríssimos irmãos e irmãs. Com esta liturgia abre-se, em toda a Igreja, a Semana maior, conhecida por Semana Santa. Hoje, celebramos o Domingo de Ramos, em que temos a oportunidade de meditar as narrativas da Paixão do Senhor.

Vale lembrar que os relatos da Paixão estão na origem e não no fim do Evangelho. Aliás, se olharmos as biografias dos homens ilustres perceberemos que todas começam com a exposição do nascimento, e, depois, acabam com a morte. No entanto, a biografia de Jesus, começou com a narração da morte e, só depois, chegou à do nascimento.

As quatro narrativas presentes nos Evangelhos, de algum modo, se divergem. Como deixar passar despercebida a concordância das cenas, a presença das personagens, a simplicidade despojada, o tom narrativo isento de polêmica, as tensões, os recortes, e, sobretudo, a factualidade histórica?

Em todo caso, a Paixão do Senhor, se meditada com olhos de intelectuais e historiadores, poderá não surtir o devido efeito, porém, se pensada e refletida com os olhos da fé e da verdadeira pobreza evangélica, poderá produzir os frutos que tais fatos quiseram e querem significar.

Teologicamente, a pergunta irresoluta e o problema fundamental ainda ecoam: quem foram os responsáveis pela morte de Jesus, os judeus ou os romanos? Que motivos levaram Jesus à cruz: os de cunho religioso ou político? Mas, antes de teólogos e historiadores, nós somos crentes. E, nesta condição, melhor que procurar pelos culpados é tentar encontrar um lugar para envolvermo-nos na trama.

Uma vez concluída a proclamação da Paixão, fecha-se o livro, e podemos dizer que, no sentido literário, a Paixão acabou; porém, a história continua. Os acusadores do passado morreram, as testemunhas voltaram para a casa, as autoridades lavaram as mãos, mas nós, crentes, continuamos na história, aqui e agora.

E qual deverá ser a nossa reação? Lavaremos as mãos também, mesmo cientes do vírus da corrupção que ronda nosso continental Brasil? Lavaremos as mãos, enquanto refugiados morrem na travessia aventureira, mas necessária, em busca da preservação da própria vida? Lavaremos as mãos, mesmo diante do absurdo que tem acontecido com nossos irmãos venezuelanos (todos os dias chegam a Roraima 900 venezuelanos)? Lavaremos as mãos, enquanto o nosso estado vizinho (Rio de Janeiro) degringola e morre na violência, entre facções e civis?

Acaso não acreditamos que Jesus continua a padecer e a morrer nessas circunstâncias? Se assim não fosse, a Bíblia seria apenas um livro velho, do passado e morto. Mas, acreditamos na força do Espírito de Jesus, e, por meio dele, sabemos que Deus habita as nossas estruturas humanas. Basta abrirmos os olhos do coração para percebermos os sinais.

Na biografia da Paixão de Jesus houve espaço para muitas personagens. Inclusive, pela força rejuvenescedora do Espírito, há espaços para mim, para você, assim como para os refugiados, os imigrantes, os presos, os pobres e os corruptos, desde que nos convertamos.

Comecemos bem a nossa semana, lembrando que ela é a Semana Santa! Tentemos encontrar, na semana da Paixão de Jesus, o nosso lugar, e mais, observemos os sinais do Espírito de Jesus, pronto para habitar nas mais diversas realidades presentes no mundo.

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