O Encanto das palavras x o Primado do Coração! (Mt 21, 28-32)


 


Encontramo-nos diante de uma parábola tão simples, mas tão simples, que até desconfia-se da autoria de Jesus, caso o leitor não se questione, na hora de entender o presente enunciado. E por que Jesus falou nesse tom, aparentemente abrasivo, para não chamar de tenso e contraditório? Exatamente porque Ele não estava falando para crianças que tentavam chamar sua atenção, mas para Chefes, Anciãos e Sumo Sacerdotes, isto é, homens prontos e resolvidos.

Nos lábios destes homens, todos podiam encontrar a proclamação da Palavra de Deus, por meio dos Salmos; quer fosse de dia, quer fosse de noite. Ou ainda, o Louvor de Deus, através dos preceitos, dos códices e da aliança firmada no passado. Jamais, alguém do senso comum poderia desconfiar de homens tão ilibados na sua aparência.

Mas, para Jesus o que vale é o coração! Sim, é dele que brotam as iniciativas de Amor e de Reconciliação com Deus e com os irmãos. Disto resulta o porquê Jesus prefere a última boca que nega acompanhado do coração que professa e faz, ao coração que se fecha e só se abre para fins exibicionistas e aparentes.

E como o Reino não é feito de aparências, nem de hipóteses, tampouco de liturgias desencarnadas da vida, Jesus escolhe trabalhar o dilema do mau comportamento daquele que negou com a boca e executou com as obras, àquele que mostrou-se com as palavras, exibiu-se com a aparência, mas fugiu do compromisso e não honrou com o coração o que professou com a boca.

Neste sentido, podemos entender de cheio a bravura das palavras de Jesus: “Em verdade vos digo, os publicanos e as mulheres de má vida vos precederão no Reino dos Céus”. Mas atenção: não é que os publicanos e as mulheres de má vida nos precederão de qualquer jeito e a qualquer preço, não! Irão, caso ajam como o segundo filho e sejam capazes de executar com a vida o que o “destino horrendo” lhes impossibilitou de fazer com as palavras.

Tudo isso aconteceu porque Jesus não suportava mais assistir tantas desordens, hipocrisias e contratestemunhos. O Templo, outrora sinal de identidade e de pertença, construído com tanto suor e lágrima, não poderia continuar sendo lugar de comércio, casa de projeto pessoal, lugar de enriquecimento ilícito, propriedade de poucos, não!

Agora, ainda que se tenha que pagar um preço alto, isto deverá acontecer a fim de que nenhum edifício pomposo, nenhum véu luminoso, nenhuma letra cunhada em tinta, possa exercer o primado da Pessoa Humana, quando esta quer se voltar para Deus. E de fato, isto aconteceu. O templo, por volta dos anos 70 d.C, caiu, e a partir de então, cessou-se o Templo material e investiu-se no Templo Espiritual. E, quando este começou a ser construído? Quando Deus visitou, no vale da morte, e, pelo Espírito, ressuscitou Jesus e o fez Senhor e Cristo. E, por fim, quando nas sendas da história e na orquestra da vida, Ele, Jesus Ressuscitado, fez surgir corações magnânimos no peito de homens e mulheres, alguns, dentre eles, ainda meninos e meninas.

E, caso peçamos um exemplo concreto, lembremo-nos de Teresinha de Lisieux, a menina do interior da França, de palavras doces, mas de coração resolvido; menina que se tornou mulher, trancada em sua cela, sem nunca precisar elaborar planos de missão e pastoral, chegando, pela força do Amor, na concretude da vida diária, a ser proclamada a padroeira das Missões. Se algumas vezes negou com a boca, jamais se esqueceu de professar positivamente com o seu coração, o Amor que sempre teve a Jesus!

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