O Deserto e a Voz! (Mc 1,1-8)

 

Encontramo-nos no início de um texto evangélico que, durante séculos, foi olhado, de certa forma, com menos fervor, sobretudo pela ingenuidade da devoção popular, e pelo rigorismo dos doutos tradicionalistas. Mas, por que este escrito evangélico sofreu tantas críticas?

Certamente, porque Marcos é o único evangelista que, desde o início, não temeu apostar na humanidade de Jesus. Por isso, para ele, valeu muito a pena discorrer linhas e mais linhas dissertando a vida e atitudes de um homem que não tinha medo de se aproximar das pessoas, criar com elas diálogo, amizade e intimidade.

Marcos, embora seja, historicamente, o autor do primeiro Evangelho a ser escrito, não se preocupou em começar sua Obra colorindo a Fé Cristã que nascia com a “Festa do Natal”. Os outros Evangelhos, de Mateus e de Lucas, preferiram dar vida a pastores, ovelhas, reis, estrela e até anjos. Marcos preferiu apenas dois instrumentos para proclamar, aos altos e baixos da Palestina, que Jesus era o Cordeiro de Deus: o deserto e a voz!

Para o evangelista, o mundo sem Deus é verdadeiramente uma terra inabitada. Eis a situação da pequenina Judeia e dos seus arredores: embora tivesse um amontoado de pessoas aqui e acolá, era árida, inclusive nas relações, mórbida nos relacionamentos e fria na construção do próprio crer. Entretanto, não poderíamos contar com um cenário tão ideal quanto o deserto para nos levar, sempre mais a nós mesmos! E onde poderíamos ser agraciados por uma voz que grita sem ferir, questiona sem explorar, interpela sem escravizar? Acaso encontraríamos em meio ao barulho dos shoppings ou na frivolidade do consumo demasiado?

Hoje, a proposta da Liturgia do Advento é que, tal qual João Batista, nós também encontremos o nosso deserto, isto é, o nosso lugar. Lá ouçamos a bravura da Voz de Deus que nos fala e nos tornemos vozes autênticas, livres e afinadas, porque preparadas pela polidez do silêncio, que mata os barulhentos, mas edifica os que aprenderam a ouvir.

A metodologia do evangelista soou contraditória, até ser entendida e se tornar, na História da Exegese Cristã, umas das maiores Obras, no cânon do Novo Testamento! De igual modo, propor para uma assembleia de batizados a mesma receita, inicialmente soaria estranho, também. Entretanto, se quisermos colher com afinco a mensagem pacificadora do Natal e iluminar-nos no seu brilho, antes precisaremos passar pelo deserto, ouvir a Voz, convencer-nos Dela e nos tornarmos, na vida, voz.

João Batista, logo cedo, ficou conhecido na tradição como o bravo, de voz estridente, catequese pesada, cheia de escatologia e apocalipses. Sim, de certo modo, este homem andou por estes predicamentos, mas, segundo o evangelista Marcos, João foi de fato: voz forte para os que dormiam, voz branda para os que seguiam a justiça do Senhor, ponto de silêncio e contradição para os que viviam perdidos no barulho das cidades. Porém, ponto de encontro, para os que haviam recebido a proposta do Batismo.

E nós, que caminho queremos percorrer? Que estrada queremos traçar? Que voz queremos equalizar mediante o barulho do mundo?

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