O Crer e a Felicidade! (Lc 1,39-47)

“Maria, que veio apressadamente de Nazaré”, transforma-se, juntamente com seu Filho, na figura central. Tal imagem representa quem foi Maria, de uma forma bem mais evangélica que outras tantas que nos foram concedidas ao longo dos séculos, contudo distantes do Evangelho. Imagem, esta, propícia para o Tempo do Advento, precisamente porque indica saída de si mesmo em direção ao outro; supõe deslocamento, abertura, vida dada e doada.Há nesta Mulher, discípula e missionária, muitas características; uma, no entanto, merece destaque: “Quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria em meu ventre. Feliz és tu que creste, porque se cumprirá o que o Senhor te disse!…”.

Exegeticamente, sentenciaríamos de modo muito simples: esse verso diz respeito ao cântico proferido, no Antigo Testamento, por Débora, implorando clemência a Jael, a fim de não entregar a sorte do povo de Israel nas mãos de Sisera, o opressor. Mas, teologicamente, a mensagem nos foi dada: a felicidade e, portanto, a realização de Maria enquanto mãe, mulher, pessoa estão totalmente relacionadas à sua abertura ao dom da fé. Sim, ela creu e, por isso, deu o primeiro passo na liberdade de crente.

Hoje, assistimos um crescimento descomunal de pessoas ateias, ao passo que aumenta, consideravelmente, o número de pessoas religiosas, contudo sem compromisso com o “objeto” de sua crença. Justamente porque se pensa, com muita frequência, que fé tem pouco a ver com felicidade. Assim, a religião se torna um mero estorvo para a vida, uma espécie de saída de emergência, uma válvula, um atalho feliz e suavizante.

Ora, enquanto o mundo dogmatizou o conceito de que religião apequena a pessoa e mata o prazer de viver, existiram mulheres que mostraram que a fé contém uma força decisiva para enfrentar a vida com alegria e plenitude interior, tais como: Maria, Isabel, Débora, assim como homens: Jesus, João Batista….

Atualmente, faz-se muito necessário recuperar a virtude, ou, em modalidades atuais, a categoria tão escassa e perdida da alegria. Eram embebidos desta virtude que homens e mulheres derramavam seu sangue, no início da Igreja cristã; com alma alegre, a Igreja tornou-se a maior instituição voltada para a cultura do homem antigo e, sobretudo, medieval. E foi movida pelo oxigênio da alegria que Maria deixou todos os seus afazeres e foi até Isabel.

Hoje, cobertos pelo manto da tristeza, da vergonha, do desvalor, que nos levam à tibieza e letargia, todos nós devemos voltar os olhos para o céu e pedir ao Senhor que, escatologicamente, preserve o nosso desejo de aguardá-lo, a fim de entendermos que ainda há respostas para nossas perguntas, há uma luz no fim do túnel, há solução para nossos problemas!

Podemos saborear essa verdade no Natal que se aproxima. Com essa festa, crescem os sentimentos por dias melhores, os laços se estreitam, as distâncias se encurtam, o perdão é dado, um presente é oferecido. Que tal pedirmos a Jesus a graça, a virtude, o dom, a categoria da alegria?! Com ela poderemos tranquilamente caminhar de Nazaré para Judá; do nosso eu ao eu do outro; da nossa comodidade à dos outros.