Homilia: O barro e o Espírito!  (Jo 20, 19-23)


Era noite em Jerusalém. Havia, naquele conhecido lugar, um vazio incalculável. Ninguém podia preencher o caos, a não ser quem lhes faltava: Jesus de Nazaré. Cronologicamente era noite, porém, sentimentalmente, também era noite no coração de todos os presentes, reunidos naquela casa. E o que fazer quando se avoluma uma multidão de sentimentos e todos apontam para o nada? Não existe outra saída a não ser “fechar as portas”!

No primeiro livro das Sagradas Escrituras, Israel acreditou que o ser humano foi feito do barro. Isso significa que ele pode desmoronar a qualquer momento. Ora, como caminhar com pés de barro? Como olhar a vida com olhos de barro? Como caminhar com um coração de barro? Como ter coragem para abrir a porta e sair se este grupo foi feito, predominantemente, do barro? No entanto, este barro vive! Em seu interior há um sopro que o faz viver. É o sopro do Espírito de Deus!

A comunidade de Jesus, que é a Igreja, sem o Espírito tornar-se-ia apenas um grupo medroso, fechado, pacato, anêmico e desanimado. Sim, o que seria dessa comunidade se não fosse o sopro do Espírito do Senhor para abri-la e vivificá-la? Uma comunidade sem o Espírito tende a ser apenas um grêmio estudantil, uma associação secreta, um grupo assistencialista. Seria fechada e atrasada. Não teria sonhos e ideais.

 Outrora, foi necessário, por parte do grupo que estava reunido, abrir-se à novidade do Espírito do Ressuscitado. Hoje, outra coisa não se deve fazer, a não ser clamar: “Vem, Espírito Santo! Vem à tua Igreja! Vem libertar-nos do medo!”.

Liturgicamente, a Igreja celebra, com este texto evangélico, o Domingo de Pentecostes. Aqui, os discípulos sentem o sopro criador de Jesus. Tudo começa de novo. Impulsionados por seu Espírito, devem continuar a colaborar, ao longo dos séculos, no projeto do Reino, iniciado por Jesus.

Para isso é necessário não apenas reformas religiosas, revisão da moralidade, aprofundamento da teologia e da catequese, construção de novos templos, celebração dos sacramentos. Antes, é preciso experimentar, em nossa comunidade, um “novo começo”, não do nosso jeito, mas do jeito do Espírito ressuscitado de Jesus.

Desse modo, a comunidade saberá plenamente o que era e o que se tornou. Inicialmente, conforme atesta a narrativa do Gênesis, éramos barro, dele fomos feitos. Porém, por meio do sopro do Espírito de Jesus, tornamo-nos o que somos: filhos, herdeiros e participantes da promessa. Mas, isso não anula a nossa condição frágil de ser barro.  Quem sabe, assim, não sejam reproduzidas em nós as ações e atitudes de Jesus?

Para nós, cristãos, o Espírito Santo é Deus. Trinitariamente Ele é a terceira pessoa. Mas, nós não O vemos. Oxalá consigamos abrir o coração e pedir a Jesus, nessa celebração litúrgica, que Ele visite de tal modo as estruturas da nossa comunidade, que os frios sejam incendiados, os distantes sejam aproximados e os apáticos sejam entusiasmados!

Em todo o caso, jamais devemos deixar de clamar e suplicar: “Vem, Espírito Santo! Molda este barro vivente, educa este coração de barro, agiliza estas mãos frágeis e direciona estes passos líquidos! Torna-nos, filhos do Pai e irmãos do Filho, hoje e sempre!”.

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