Homilia: O Agricultor, a Videira e o Ramo! (Jo 15,1-8)

 

Muito provavelmente, em uma noite de quinta-feira, antes da festa da Páscoa, em meados dos anos 30, se deu em Jerusalém esse encontro. Jesus sabia que sua Hora havia chegado, e, por isso, era necessário, como líder de um grupo, deixar para os seus, um testamento. O encontro ocorreu num tom de despedida. Caso pudesse ser feita uma interpretação psicológica do episódio, concluir-se-ia que tristeza, pavor e medo rondavam aquela sala.

A Hora chegara. O vazio e o medo também, mas a vida precisava continuar, porque o Reino precisava ser estendido. Mas, para isso, era necessário que cada discípulo introjetasse a palavra de Jesus: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”. O verbo permanecer, em apenas quatro versículos, aparece sete vezes.

Para isso, Jesus usou a imagem da videira, dos ramos e dos frutos. Símbolo muito presente nas tradições escriturísticas de textos veterotestamentários. No Antigo Testamento, sobretudo na literatura profética, Israel foi o povo eleito, escolhido para ser a “videira”, que Iahweh outrora havia arrancado do Egito, da casa da escravidão e que foi transplantado para a Terra Prometida, com amor singular e fecundo (Sl 80,9.15). Israel era também considerado como a vinha que Deus plantou com cepas escolhidas, mas que produziu frutos amargos e impróprios (Is 5,1.7 / Jr 2,21 / Os 10,1).

Agora, reunido em torno de uma mesa, junto com os seus, é Jesus quem se apresenta como a verdadeira videira plantada por Deus: disposto a dar frutos, a fazer o que no passado não foi possível ser feito, a anunciar o Reino indo além dos limites geográficos da Galiléia, a entrar nas esquinas consideradas “profanas” dos pagãos. Pois, dessa videira, nova no método, na estrutura e na forma que é Jesus, haverá de sair novos ramos, isto é, novos homens e mulheres, dispostos a abraçar a causa do Reino. Contudo, isso só será possível, na medida em que o discípulo permanecer unido ao mestre.

E permanece de verdade quem “come a sua carne e bebe o seu sangue” (Jo 6,56). A carne de Jesus é a sua vida, dada e doada para a vida do mundo. O sangue de Jesus diz respeito à sua capacidade de entrega, por liberdade e por amor. A isso se chamaria de união íntima! Unir-se a Jesus é muito mais que a declamação de palavras recitadas a Ele; muito mais que a expressão de um sentimento pessoal e singular emitido pelo som do coração; é muito mais que uma prece realizada sem constância, nem consciência do que se está fazendo.

Unir-se a Jesus é colocar a própria vida a serviço na comunidade. Pronto para viver as diferenças, preparado para se relacionar com os diversos, seguro no patamar das emoções, lúcido na presidência dos sentimentos, firme na condução da moralidade dos atos, pequeno diante da popularidade, grande e presente nas atitudes de silêncio.

Pois, no fim das contas, será sempre o agricultor quem deverá garantir a saudabilidade dos ramos para com a videira. E, seria bom que os ramos, que poderiam dar frutos, mas não o fazem porque preferem a esterilidade, sejam cortados. Coloquemos nosso coração nessa Liturgia e peçamos ao Senhor Deus que nos ajude a estarmos unidos à Videira, sendo generosos em frutos.

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