Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo! (Mt 25, 31-43)

 

 


 

Amados irmãos e irmãs, celebramos em toda a Igreja a Solenidade de Cristo, Rei do Universo. Encontramo-nos diante de um texto que não tem, em primeiro lugar, finalidade estritamente histórica, mas, catequética e teológica. A cena aqui apresentada, acerca do juízo final, não pretende ser exata, nem equivalente àquela que se dará conosco por ocasião do nosso julgamento diante do Senhor. O evangelista não é um repórter, nem tampouco um historiador; é apenas um catequista, discípulo e missionário preocupado em formar a sua comunidade.

De uma coisa podemos estar certos: o rei veio, vem e virá para julgar os vivos e os mortos. Mas, por ocasião do julgamento o que Ele nos perguntará? Deus, em Jesus, seu Filho bendito, fará sobre nós um julgamento? E que metodologia será usada para nos julgar? Acontece que pisamos num terreno meta-histórico, metafísico. Neste espaço, a carne humana é finita por demais para habitar, os sentidos humanos são muito falhos para entender essa metodologia, e a vida humana aí terá o seu desfecho, porque, por ocasião da morte, ela será abraçada por Jesus e será introduzida no coração de Deus.

O evangelista preferiu predicamentar o processo do julgamento levantando figuras e símbolos, tais como: ovelhas e cabritos. São João da Cruz, profundo amante do silêncio e da contemplação, sem desmerecer as diretrizes evangélicas e as figuras tecidas no evangelho proclamado, acreditava que a única pergunta cabível nos “lábios de Deus” para a sua criatura, não poderia ser outra, a não ser: “Enquanto viveste, amaste como Eu?”.

A escatologia, doutrina teológica que estuda, através das Escrituras e da Tradição, o fenômeno do fim dos tempos, acredita que no último dia, no derradeiro minuto, momento em que a Terra se encontrará com o Céu, o finito se abraçará ao Infinito e o espírito assumirá todo o peso que pairava sobre a matéria, Deus não precisará falar palavras; Ele olhará para o seu criado e este, deixando-se ser olhado pelo Criador, entenderá, a partir do coração, qual será o seu devido lugar por todo o sempre. Isto é, se ele fará parte do grupo dos cabritos ou da comunidade das ovelhas.

O amor que vence no juízo não é o amor que praticamos no cotidiano de nossas vidas. Pois, o nosso estilo de amar é afetado pelos laços do interesse, pelas curvas do egoísmo, pelos atalhos da indiferença, pela atrocidade do individualismo. O amor que vence no juízo é o amor com que Jesus nos amou do primeiro ao último instante da sua vida. Pois este estilo de amar acontecia na Terra porque tinha suas raízes no Céu. Durante o dia, este amor não se importava de se misturar com os sujos e pecadores, ao passo que, durante a noite, ele rejuvenescia, a partir de dentro, ao subir aos píncaros da montanha para, através da oração, falar com o Pai.

Celebrar a solenidade de Cristo Rei é entender que, para receber o prêmio da salvação, é preciso ir além dos patamares da injustiça e da justiça; é preciso sublimar os muros do erro e do acerto, é preciso mesmo: amar. Mas, amar não enquanto uma atitude preceitual ou um ato meramente devocional; nem tampouco o amor deve ser uma espécie de rito que estimula a fazer o que se deve para não cometer abusos. É preciso amar como Deus ama, e o modo como Deus nos amou e nos ama, em Jesus, parte sempre da vida, do concreto e da simplicidade.

No último instante, o olho da criatura fixar-se-á no olho do Criador; o menor, como é praxe, reconhecerá o Maior; mas será que o Maior (ontologicamente falando) reconhecerá o menor?

Que nesta Solenidade, o Espírito Santo de Jesus engravide-nos de amor e nos faça entender que amar é um horizonte plenamente concreto, diário e dinâmico.

 

 

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