Homilia: Misericórdia: a seiva da ressurreição!  (Jo 20, 19-31)


 

O texto evangélico, que foi proclamado, nos introduz numa perspectiva cronológica: “Oito dias depois, veio Jesus…”. Por um lado, tem-se a visita de Jesus ressuscitado e vivificado pelo Espírito, aquele que nada e ninguém pode barrar, pois é livre para ir e vir, sem estar condicionado ao tempo e ao espaço. Por outro lado, no oitavo dia, o Ressuscitado encontra, dentro de um espaço fechado, um grupo de homens, e, certamente mulheres, cobertos pelo manto da tristeza, ensimesmados pela capa do medo, carcomidos pelo espírito de desconfiança. Porém, nenhuma dessas realidades foi capaz de dar um basta à força positiva e à luz da ressurreição!

Quando o Ressuscitado visitou os homens e as mulheres amedrontados, ergueu-se uma voz, com tom de incredulidade, na boca de Tomé, colocando condições para poder acreditar. Mas, seria Tomé uma figura do passado? Hoje, este eco não encontraria espaços em tantos crentes? Não seria, a incredulidade de Tomé, um conteúdo catequético?

Em todo caso, onde o Ressuscitado chega a mudança é certa! Pois, a liberdade trazida pelo ser de Jesus foi e é capaz de mudar as estruturas, tanto comunitárias quanto pessoais. Todavia, porque a ressureição tem consigo essa força incalculável? Porque a seiva da ressurreição é o perdão e a misericórdia! Dois dons extremamente importantes que coexistem dentro de um mistério que abarca o divino e o humano.

Quando o Ressuscitado chegou, outra coisa não trouxe consigo a não ser o dom do perdão e o vírus da misericórdia. Pelo primeiro, ensinou-nos que Deus vai além dos nossos cálculos, dos números, das aparências e que seu jeito de amar é levantando os que caíram e derrubando os que ficaram de pé para oprimir e humilhar. E, pela misericórdia, nos ensinou que quando a criatura se arrepende de verdade, sabe que há chances reais de recomeçar e fazer diferente.

Lamentavelmente, ainda hoje, existem diversas pessoas, que não são capazes de crer no amor fecundo e misericordioso do Senhor. Certamente, tal atitude reflete uma vida que não teve oportunidade de ser amada, nem perdoada. Esse domingo, instituído por São João Paulo II, quer ser, para todos os cristãos, o momento forte de encontro com a fagulha da misericórdia, que não desiste de nos alcançar.

Ainda existem, em nosso país continental, diversos grupos que vivem e sofrem reféns do medo, vítimas da desigualdade, fruto de um sistema que usa de predileções para acomodar os “amigos” e embrulhar os “padrinhos”. Porém, não foi esse o critério usado pelo Ressuscitado. Este, uma vez na sala, atingiu a todos, perdoou a todos, amou a todos e a todos serviu. Pois, aprendemos com Jesus que Deus não é matemático (Ele não anota nossas faltas num livro); que Deus não é juiz severo (julga pela letra); que Deus não é fascinado por multidões (sempre teve consigo, um grupo, um clã, uma família); antes, Deus é perdão e misericórdia. Pelo perdão, Ele, em Jesus, absolve. Pela misericórdia, Ele, em Jesus, nos dá nova oportunidade.

Leave Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *