Homilia: Uma Cena cheia de Iguarias! (Lc 16, 19-31)


Uma cena, composta por duas imagens, absurdamente contrastantes! Por um lado: “Um rico poderoso, com roupas brilhantes e luxuosas que passa a vida em banquetes fartos com variadas iguarias”. Por outro, “um pobre, classificado como Lázaro, isto é, Eliezer, que significa “meu Deus é ajuda”; desvalido, jogado ao léu da própria sorte”. Um contraste singular nas páginas das Escrituras! “Um, coberto com mantos finos e brilhantes; o outro, repleto de feridas e reprovações”.

Cena conflituosa, pois, o rico, tem tudo, sente-se seguro, não precisa de Deus, não enxerga o pobre, consequentemente, não vê também a Deus. Este, não é semelhante ao ser humano contemporâneo que decretou ruptura com Deus e sua Palavra? Que leva a vida conforme os seus sonhos e planos? Que vive inerte à própria consciência?

Por sua vez, o pobre, não é semelhante a milhões de seres que, jogados pelas ruas das nossas cidades e avenidas, tornaram-se vítimas do próprio vício, de modo tal que foram abandonados à própria sorte? Estes, juntamente com a figura do pobre do Evangelho, não seriam semelhantes à imagem do pobre Jó, que, por ironia do destino, perdeu tudo, embora no final tenha conseguido recuperar em cêntuplo o que perdera?

Uma cena bela porque, nesta, Jesus não emite um julgamento, nem tampouco sentencia claramente sobre a sorte de ricos nem de pobres. Apenas, com seu olhar pobre, sereno e livre, desmascara as estruturas covardes e desumanas de uma sociedade que, no decorrer da vida, aprendeu a olhar a beleza da pessoa por fora e esqueceu o seu interior.

Uma cena didática porque, ao se imortalizar na história da Salvação, nos ensina que, no mundo de Deus, não há espaços para bens, posses, lucros, credenciais, débitos e créditos, senão, ser o que somos e o que nos tornamos quando permitimos que o Amor nos visite.

Lembremo-nos: o rico tinha tudo, ou quase tudo! Cria ter tudo, por possuir: bens variados, valores incalculáveis, riquezas incontáveis, vida farta e cheia de muito gozo e prazer. Quase tudo, porque lhe faltava algo simples: um nome! O pobre, nada tinha, quer dizer, tinha apenas o nome: Lázaro, isto é, “Deus é ajuda”! Eis o diferencial!

Hoje, quantas lutas travamos, quantos embates abraçamos, quantos ideais perseguimos, só, e somente só, para dizer para nós mesmos: “Eu consegui! Valeu a pena! Nota 10 para mim!”. Não que isto não seja louvável e tais iniciativas o são! Acontece que, neste itinerário, jamais podemos esquecer de que a vida, enquanto tênue passagem sobre a terra, é feita de gestos simples, atitudes concretas, coisas pontuais. Que empecilho terei se, no caminho da faculdade, responder a hora questionada por um desconhecido? Que problema concreto enfrentarei pelo simples fato de dar o endereço correto a alguém que está perdido em meio à grande metrópole? Qual o problema de pagar um almoço para alguém que verdadeiramente pede comida?

Cuidemo-nos para que a pressa egoísta da vida atual não nos torne máquinas insensíveis, como fizera com aquele rico que na vida teve tudo, menos identidade revelada.

Pe. Ancelmo Dantas – Coord. Pastoral Vocacional / Feira Vocacional