Homilia: Transfiguração é Escuta! (Mc 9,2-10)


O texto evangélico, que hoje nos é proposto pela Liturgia da Palavra, carrega consigo inúmeros símbolos, muitas verdades e incalculáveis lições. Tanto para a comunidade cristã que dava seus primeiros passos, quanto para nossas comunidades, que atualmente navegam contra as correntezas, frente a um mundo hostil, indiferente e insensato.

O que significa este cenário? Subida ao monte, vestes resplandecentes, manifestação de homens memoráveis na história da salvação, contentamento interior dos discípulos, presença da nuvem e audição da voz? Queria, o autor sagrado, registrar este momento do mesmo modo que o faz um telespectador quando assiste ao seu televisor? Ou a intenção do autor seria narrar detalhadamente o ocorrido? Certamente não!

Este cenário é bem entendido na paisagem judaica. Como se esquecer das grandes teofanias veterotestamentárias: a sarça que queimava diante de Moisés, o carro de fogo que arrebatou Elias, a tocha colocada pelo Anjo na boca do profeta Isaías? Assim, percebemos claramente que o evangelista bebeu de uma fonte antiquíssima e atualizou, em sua comunidade, costumes cristalinos, outrora já praticados no judaísmo.

Mas, há um versículo todo especial, nesse trecho evangélico que certamente, continua a ser o coração dessa catequese. Ei-lo: “Este é o meu Filho muito amado, escutai-O!”. Ou seja, os cristãos precisam entender, de uma vez por todas, que escutar Jesus poderá ser até doloroso, mas valerá muito a pena. Escutá-lo, será o vestibular obrigatório para quem quiser ingressar em sua comunidade.

Neste processo de escuta, será preciso calar a alma, que ficou agitada pelo barulho externo e presa pelos esquemas de uma vida pequena, material e fria. Vida esta vivenciada apenas na superfície das aventuras cotidianas, petrificada pelo seu próprio eu, ferida por sua incapacidade de aderir e abraçar o novo, que humaniza, plenifica e eleva.

Subir ao monte é preciso, lavar as vestes é necessário, mas escutar o Filho Unigênito e Primogênito do Pai é imprescindível! Do contrário, nossa vida de fé seria apenas uma simples apresentação, nossa entrega filial, ocorrida no Batismo, não passaria de um teatro, Deus seria um sentimento bonito e entendido de acordo com nossos esquemas e métodos. Mas seria este o sonho do Pai?

O Pai quer que escutemos o seu Filho, para subir ao monte do autoconhecimento que levará a certeza de si; quer que lavemos as vestes do nosso coração, manchadas por relações mal vividas e infectadas por nossa incapacidade de reconhecer os limites alheios; quer que vejamos a nuvem pairar sobre nós, a nuvem do seu amor, que de nós não desiste um único instante sequer; quer que professemos nosso contentamento, tal como Pedro, para depois termos coragem de viver com a própria vida, o professado na comodidade da Missa dominical. Isto é saída, é superação, é Quaresma. Que tal fazermos isso, sem esquecer a famosa tríade: Oração, Esmola e Jejum?

Leave Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *