Homilia: Tê-Lo é preciso! (Marcos 10, 17 – 30)

 

O texto evangélico narrado mostra-nos uma cena singular e única. Pois, nos encontros entre Jesus e o povo percebe-se, com muita frequência, a presença de fariseus, saduceus, doutores da lei e escribas. Homens que compunham diversos grupos do judaísmo da época de Jesus e que, todas as vezes que Dele se aproximavam, carregavam consigo uma única finalidade: colocar Jesus à prova!

Aqui, de modo autêntico e novo, aproxima-se de Jesus um homem, cuja intenção foi diversa daqueles que compunham os grupos judaicos. A postura deste homem e a sua atitude de respeito são capazes de revelá-lo como alguém sincero e bem intencionado, que está apenas preocupado com uma questão vital, tanto para a tradição judaica quanto para a nova tradição, que surgia na Palestina, com a comunidade do Galileu: a vida eterna.

Outrora, a tradição em voga, tanto para o judaísmo, quanto para o helenismo, relatava que aqueles que fossem fiéis aos mandamentos deixados por Moisés não seriam julgados na valeta do xeol, lugar onde os espíritos dos mortos levam uma existência obscura e são escravos na sombra da morte; mas, ressuscitariam para uma vida nova, cheia de alegria e de felicidade. Portanto, já havia uma ideia de imortalidade da alma, contudo sem atingir a ideia maciça da ressurreição para estes.

Com Jesus, introdutoriamente, não há nada de novo, pois sua resposta remete o homem confuso para os mandamentos da Torá: “Não mates, não roubes, não cometas adultério, não levantes falso testemunho”.  E, serenamente, o homem responde que vive tudo isso, porém ele ainda confessa sentir um vazio interior, e, por perceber essa lacuna, Jesus o convida a integrar-se na comunidade do Reino.

Ora, esse novo patamar tem outro grau de exigência. Humanamente falando, é impossível adotar este estilo de vida, mas, não existe outra alternativa para aqueles que quiseram abraçar a vida do Mestre, por meio de uma consagração pessoal e exclusiva. Não centrar a própria vida nos bens deste mundo, assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos e seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega.

Aquele homem, bem intencionado, entristeceu-se profundamente porque percebeu que não estava preparado para viver tamanho ideal. Todos são obrigados a viver este estilo de vida? Não! Mas, aqueles que se encontrarem neste patamar deveriam saber que na escola de Jesus não há espaços para corações divididos. Sim, não é lugar para perfeitos e prontos, mas não se compreende corações desencontrados e divididos.

Aquele homem bom ficou decepcionado, por um lado, com ele mesmo: certamente sentiu-se covarde, impotente, limitado, pequeno por demais para abraçar a proposta que lhe foi apresentada. Por outro, sua decepção pode ter sido também com o Autor da proposta. No entanto, a beleza deste encontro consiste no movimento da liberdade. Jesus não impôs nada a ele, não teve pretensões de convencê-lo acerca do que ele deveria ou não fazer, pois sabia, perfeitamente, que na escola do Reino, nem todos seriam capazes de adotar singular estilo de vida.

Em suma, não são, em si mesmos, a pobreza, o desapego, a partilha que nos aproximarão substancialmente de Deus. Tais iniciativas são vividas todos os dias e podem ser só, e somente só, circunstâncias assistencialistas. Tais iniciativas ganham em brilho e sabor quando, no epicentro do eu humano, existe uma verdade fundamental: Deus é a nossa suprema segurança; sem Ele a criatura se liquidifica, degringola, cai e morre. Tendo muito ou tendo pouco, precisa-se tê-Lo como o primeiro amor e como única opção fundamental.

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