Homilia: Talhas vazias! (Jo 2, 1-11)

 

Hoje, abre-se, em toda a Igreja, o Tempo Comum. A partir de então, salvo os tempos da Quaresma, da Páscoa e de algumas Festas e Solenidades, próprias do calendário litúrgico, serão percorridos trinta e quatro domingos e, nestes, será celebrado e vivido o chamado Tempo Comum.  Ele pretende ensinar a todos, através de parábolas e imagens, gestos e atitudes: Jesus, que não se cansa de fazer o bem.

 No texto evangélico, vê-se, com bastante precisão, um jogo de imagens, constituindo cenas profundas, reais e que querem levar os leitores, de todos os tempos, a recolher daí ensinamentos para suas vidas. Diz respeito a um casamento que ocorrera em Caná da Galileia.

Lá, de acordo com a narrativa textual, existiam apenas seis talhas de água. Ora, mas o que quer nos mostrar essa imagem? O autor, certamente, alude o fato à realidade da antiga aliança. Esta, que fora tantas vezes quebrada, rompida, abandonada e, em algumas situações, esquecida. Graças à palavra dos profetas, o povo voltava e fortalecia os laços, outrora firmados.

No entanto, o fato de serem seis talhas de pedra, pode querer mostrar a incompletude da primeira aliança. Haja vista que este número, na simbologia bíblica, aponta para imperfeição. E, uma vez adjetivada como talhas de pedras, por um lado, demonstra a firmeza daquilo que Deus propõe. E, por outro, nos lembra de quão grande é o caminho e difícil a estrada que nos leva a sair das leis escritas nas páginas dos códices, para o livro interior, composto de carne e sentimentos, emoções e sensações. Neste último, o principal artífice dessa obra é o próprio Espírito Santo.

A narrativa ainda observa que as talhas estavam vazias. O que supõe esterilidade e fracasso, pois, acabou por faltar o elemento principal de uma festa de casamento, o vinho. Isto é, a alegria. Assim, o homem não podia se aproximar de Deus e este tampouco podia se aproximar dos criados.

Encontrar-se com Ele, querer tê-Lo, amá-Lo com todas as forças do próprio ser, supõe pacto, aliança, de algum modo, casamento. E nesta aventura, vale a abertura do coração, a transparência interior e, sobretudo, a alegria dadivosa. Pois, seria inconcebível: tê-Lo e não mostrá-Lo; curti-Lo e não segui-Lo; segurá-Lo e não partilhá-Lo.

Hoje, Ele, Jesus de Nazaré, filho unigênito e primogênito do Pai, deseja entrar em nossa casa, festejar conosco, criar pactos sinceros e maduros, a fim de que estes possam ser para toda a vida. Porém, para isso ocorrer, será necessário, termos a mesma atenção da mãe Maria: “Filho, eles não tem mais vinho”. E a mesma docilidade singular nela existente: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

Desse modo, nossa incompletude será transformada em plenitude; nossa pequenez será transubstanciada em profundidade, nossa esterilidade será elevada ao patamar da bonança. Deus, em Jesus, por intercessão de Maria, continuará nos dando vinho novo e bom. E nós continuaremos a dar ao mundo alegria carismática, impactante e livre.

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