Homilia: Ser uma só carne! (Marcos 10, 2-16)

Hoje, no Evangelho, Jesus se despede definitivamente da Galileia, continuando o seu caminho para Jerusalém, pois sabe que lá o seu destino será traçado. E, passando pela região da Judeia, para além do Jordão, território governado por Herodes Antipas, o mesmo que, no passado, havia mandado matar João Batista, por ele o ter criticado por ter abandonado a sua esposa, providencialmente, Jesus encontra situação confusa e problemática acerca da união matrimonial.

Para a lei de Moisés, o homem podia divorciar-se de sua mulher e, para isso, não eram necessários motivos profundos, bastavam apenas razões fúteis. Por exemplo, se o varão não gostasse do tempero da mulher, isso já lhe dava o direito de pedir divórcio. Ou ainda: se ele gostasse mais de uma, do que da outra, poderia pedir divórcio da primeira.

Acontece que, para Jesus, o amor matrimonial não nasceu para fracassar e extinguir-se. Antes, o amor matrimonial existe, tal qual nos apresenta a leitura da criação do universo, para crescer, amadurecer, dar frutos, a ponto de tornar-se uma força qualitativa, cheia de cumplicidade e parceria.

Lamentavelmente, a sociedade contemporânea, com frequência, tem banalizado o amor matrimonial. Separar virou moda, defender a causa do companheiro escolhido para compor o complexo quebra-cabeça deixou de ser regra. Cidadãos de uma cultura cheia de permissividade, somos, todos os dias, envolvidos pelo manto da superficialidade e rejeitamos, com muita facilidade, os valores imutáveis e as atitudes nobres, que aprendemos com os nossos antepassados.

Faz-se necessário criar, sobretudo nos casais, uma espécie de mantra nupcial: ser uma só carne é preciso e necessário! Mas, o que isso significa? Isso implica comunhão total de um para com o outro, partilhando a vida, unindo-se por um amor que é mais forte do que a própria morte. Enquanto a cultura contemporânea faz apologias para o movimento das separações e prega a normalidade acerca disso, devemos abraçar a cultura do Evangelho, que defende o amor em todas as instâncias da vida.

Como se esquecer de tantos matrimônios que sofreram cruzes e tempestades, mas que perseveraram, e depois puderam provar a beleza do lado prodigioso do amor.  Como não admirar tantos e tantos casais que ainda hoje comemoram bodas de prata e até de ouro? Estes, por acaso, nunca viveram tempestades? Nunca passaram por noites escuras? Nunca sentiram o próprio lar desabar? No entanto, porque permaneceram firmes e acreditaram no antídoto do amor, entraram para a história como testemunhas vivas da força libertadora que existe dentro do movimento do amor.

Outrora, as famílias, dentro da própria casa, possuíam: uma mesa, quatro cadeiras, uma pia, alguns banquinhos no alpendre, ou seja, sobreviviam num cenário muito simples; muitas vezes faltava tudo no lar, exceto a alegria e o amor. Hodiernamente, as famílias possuem um lar tecnologizado. Mas, os lares carecem de sentido, de alegria, de paz e de amor.

O que devemos fazer? Ser uma só carne e acreditar na força criativa e regeneradora do amor. Pois, Deus mesmo é amor e tudo criou por amor. Pão e vinho são dominicalmente transformados pela força do amor; o homem e a mulher também foram matrimonialmente unidos pelo amor e, se o amor é capaz de santificar o ordinário natural, deveria também encontrar espaços entre as famílias para fazer o seu trabalho perene e diário: restaurar, formar, unir e aproximar.

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