Homilia: Profetas e Profetizas do Reino! (Lc 3, 1-6)

 

A narrativa evangélica de hoje é surpreendente, tanto nos detalhes, quanto na sua desenvoltura pedagógica. Lucas, muito preocupado em situar a catequese cristã no espaço e no tempo, repete aqui o que se propôs a fazer no início do seu Evangelho. De modo singular, somente aqui, descreve a presença de sete personagens do mundo político da época: o imperador Tibério, o governador da Judeia, Pôncio Pilatos, o tetrarca da Galileia, Herodes, o tetrarca da Itureia e Traconitíde, Felipe, e o tetrarca de Abilene, Lisânias, no pontificado de Anás e Caifás.

O que isto significa? Com isso, Lucas pretende situar o acontecimento da fé cristã no tempo concreto da vida humana. Sim, o Deus que vem nas vestes do homem Jesus, não é um fenômeno do além, tampouco estranho; antes, ele abaixou-se totalmente aos nossos esquemas, não pulou etapas ao longo do moroso processo humano de ser e crescer. Em tudo, foi e quis ser semelhante a nós, com exceção do pecado.

Assim, desde o início, pode-se afirmar, com veemência, que a fé cristã tem bases na história e nunca precisou fugir desta para realizar-se enquanto tal. Deus, em Jesus, vestiu nossa camisa, se filiou ao nosso partido, armou sua tenda em nosso meio, e, ainda hoje, continua tendo as mesmas iniciativas, todas as vezes que, no curso da história, encontra homens e mulheres, dispostos e disponíveis como foi João Batista.

Hoje, embora Ele não possa ser visto com os olhos da carne, em toda celebração litúrgica está presente e sempre pronto para ser mais conhecido e amado. Hoje, Ele não tem boca para falar, porém, quer contar com homens e mulheres que possam ser, na sociedade, vozes a representar sua voz, mãos capazes de visibilizar suas mãos e braços. Deseja encontrar, seja nos grandes centros, seja nas periferias, profetas e profetisas que O levem, que O testemunhem e que O amem, com todas as forças de seu ser.

Outrora, João foi essa voz estridente, justa e ponderada. Seu trabalho pastoral percorreu toda região do Rio Jordão. Geografia bela, em relação ao restante da Palestina, lugar de frutos e flores. Mas, cheia de cidadãos vazios, estéreis, infrutíferos nas relações com os demais. Se João, enquanto voz do Reino, passou pela zona do Jordão, então, Deus caminhou por lá também. Pois, onde quer que esteja um profeta ou profetisa, ali está Deus mesmo.

 Que tal se aproveitássemos esse tempo único do Advento e nos comprometêssemos em ser: profetas e profetisas, isto é, homens e mulheres símbolos do Amor e da Causa do Reino de Deus pregado por Jesus? Não importam: a zona em que habitamos, o bairro em que residimos, a casa em que moramos. Importa sermos vozes, mãos e braços de Jesus nas estradas da vida, a fim de que tantos irmãos, que nunca tiveram oportunidade de se encontrar com Ele, se realizem e se encontrem na vida, ao olharem para nós.

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