Homilia: O Ressuscitado e a Palavra! (Lc 24, 35-48)

 

A Igreja vive o terceiro domingo da Páscoa. Diante dos nossos olhos se levanta uma literatura, composta de uma narrativa fascinante e singular: dois discípulos perdidos, como que às apalpadelas, resolveram voltar para sua cidade. Mas, enquanto caminhavam, meditavam as duras cenas aplicadas sobre a pessoa de Jesus. Eis que Ele mesmo, conduzido pelos “ventos” da ressurreição, aparece pronto para explicar as Escrituras.

O que significa essa liturgia gestual presidida por Jesus?

Em primeiro lugar, significa que a ressurreição, para além do teor mistérico que contém em si, não é um fenômeno contraditório em relação à pessoa humana. Afinal de contas, o Ressuscitado não tem medo de mostrar as marcas, de testemunhar acerca da sua própria identidade, de deixar-se tocar no caminho com aqueles com quem se encontra.

E, em segundo lugar, Ele abre as Escrituras para explicá-las, porque esta continua sendo, na Igreja, a raiz, o espelho, a meta e o coração da comunidade. Sem as Escrituras, o homem se perde e perde o sentido da sua vida. Sem as Escrituras, o homem perde a verdadeira referência, a ponto de voltar ao estado instintivo, vazio e triste. Pois as Escrituras relevam o homem a si mesmo e fazem-no compreender como a pregação do Ressuscitado é, verdadeiramente, o selo de Deus, de tudo aquilo que foi sendo realizado na história da salvação e do mundo.

O encontro entre o Ressuscitado e os dois discípulos amedrontados não foi marcado por um tom moralista, nem tampouco preceitual. Antes, este foi marcado por gestos litúrgicos: caminhar, tocar, falar, ouvir, comer… Isto significa que este encontro foi um dom! Sim, foi um presente dado pelo próprio Deus, a quem chamamos por Jesus de Nazaré: verdadeiro homem e verdadeiramente Deus.

Na vida temos muitos encontros. Como poderíamos classificá-los? Teriam eles o tom de esperança e amabilidade? Deixamos fagulhas de saudade ou feridas, quando nos encontramos? Ficam boas ou más impressões?

No encontro do evangelho de hoje, quando o Ressuscitado retomou o passado, não foi para diminuir as figuras, outrora vigentes, da história da salvação. Pelo contrário: ao falar sobre Moisés, o Ressuscitado tinha em sua memória a lembrança guardada em todo o Israel: um profeta singular. E nós, em nossos encontros, quando falamos sobre o passado ou sobre alguém, falamos sempre bem, ou antes, acabamos com a imagem do outro em busca do crescimento da nossa?

Parece-nos que, na liturgia da Palavra de hoje, o crente encontra dois caminhos para voltar à normalidade da vida e restaurar a estreiteza dos laços na comunidade. O primeiro passo, sem dúvida, é permitir ser encontrado pelo Ressuscitado: isso implica em querer fazer experiência da sua Pessoa, e, consequentemente, beber do seu Amor. E, o segundo passo, consiste em abrir as Escrituras e ver nelas a luz necessária para iluminar a escuridão e desfazer a névoa presente nas relações e nos projetos de vida.

Certos do Espírito do Ressuscitado entre nós, abramos o coração e permitamos que a sua presença e a sua palavra encontrem espaços em nossa vida!

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