Homilia: O Encanto e a Entrega! (Lc 14,25-33)


Por um lado, temos os discípulos, um bando de homens envolvidos pela empolgação, brilho e encanto, pois, no decorrer do Caminho rumo a Jerusalém, curas foram realizadas, milagres foram efetivados, maravilhas concretizadas. Logo, o sentimento latente no coração destes era: “O Reino chegou!”, “Deus está no meio de nós!”.

Por outro, temos Jesus, profundo conhecedor do coração humano. Este, percebendo o manto de encanto que recaía sobre os seus, logo os alerta, advertindo: “Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, irmãos e irmãs, e até a sua própria vida, não poderá ser meu discípulo”.

Palavra dura e ao mesmo tempo cheia de lacunas, se a pensarmos como pensa o mundo moderno. Ora, se Deus é tão Poderoso e resolvido o bastante na sua Onisciência e Onipotência, por que Ele precisa do meu amor? Por que preciso entregar minha vida a Ele?

Não é que Deus seja carente; essencialmente Deus É! Quando nos pede, desde o princípio, que O amemos sobre todas as coisas, é porque nisto consiste nossa felicidade duradoura e, consequentemente, eterna. Não amá-Lo, não querê-Lo, não servi-Lo não nos levará a lugar algum.

Espantá-Lo da nossa vida seria semelhante ao despreparo de um construtor que não calcule os gastos da sua obra, de um poeta que odeie livros, de um matemático que sinta ojeriza por números, de um pastor que desista do seu rebanho.

Jesus sabia que precisava catequizar os seus porque, no fundo, coração encantado não basta para carregar o peso de ser, no mundo, fermento, sal e luz. Ser só, e somente só, apaixonado por Deus e pela sua Palavra não basta para enfrentar uma vida reservada a Ele.

Acaso você crê que o ponto cardeal, que move o epicentro de inúmeras monjas de Clausuras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, é tão somente um sentimento? E o ponto dorsal, que move os missionários a deixarem tudo para se doarem aos outros e ver Deus neles, também é um mero sentimento? Não! O encanto, embora faça parte da vida cristã, na sua genuína raiz não constitui o ponto culminante da nossa entrega.

É preciso muito mais, é preciso decisão, entrega, doação, desprendimento, coragem. Do contrário, que valor teria a solidão de um consagrado? O Celibato de um ordenado? O zelo de um leigo? A coragem de um missionário?

Jesus nos ensina que, com Deus, não damos um passo para trás. Jamais! Antes, preferível passar a vida inteira batendo no peito e, como Pedro, exclamar: “Domine, miserere me”, a regredir, voltar atrás ou mesmo desistir. Esta última postura seria comparada à construção mal acabada por falta de recursos, à cruel derrota depois de uma laboriosa luta.

Que tal se, nesta celebração, entendêssemos que Deus não é contra nós? Antes, Ele está sempre do nosso lado! Acontece que com Ele o jogo é marcado pelo critério humano-divino da decisão!

Pe. Ancelmo Dantas – Coord. da Feira Vocacional / Pastoral Vocacional