Homilia: O amor providencial de Deus!  (Jo 6, 41-51)

 

Caríssimos irmãos e irmãs, ainda pisamos em terreno joanino. E, inclusive, estamos no capítulo 6 do mesmo livro. As narrativas contidas, tanto neste capítulo, quanto neste Evangelho, são geralmente marcadas por símbolos. Como se esquecer que no capítulo 4 Jesus foi apresentado como a Água que dá vida? No capítulo 8, Luz que liberta o homem das trevas. No capítulo 10, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. E, no capítulo 6, celebrado nos últimos domingos, Jesus é apresentado como o Pão da vida eterna.

Há, na narrativa evangélica, um conflito entre alguns judeus e Jesus. Pois, estes não aceitavam a pretensão de Jesus ao se apresentar “como o pão que desceu do céu”. Afinal de contas, os judeus conheciam a origem humana de Jesus, como se isso excluísse a dimensão divina que Nele existia. E, para isso, Jesus chama a categoria Pai, a fim de que os judeus pudessem entender que Ele fora enviado pelo Pai, com créditos para agir em nome Dele.

Ora, o que representa a imagem contida no Primeiro livro dos Reis: Elias, debaixo de um junípero, é acordado pelo anjo do Senhor e encontra, à sua cabeceira, um pão cozido sobre pedras quentes e uma bilha de água? Acaso esta imagem não representa o amor providencial de Deus, que jamais abandona o seu vocacionado, o seu profeta, o seu discípulo, o seu enviado?

E o que falar da atitude ousada, profunda, mas sincera e convicta de Jesus de se apresentar como o Pão da vida? Acaso, tanto numa situação quanto noutra, não deveríamos ver o poder magnânimo e regenerador de Deus, que, no Antigo Testamento, elegeu, chamou, convocou e acompanhou homens profetas e, no Novo Testamento, por ocasião da plenitude dos tempos, em Jesus, torna esse poder mais evidente e eficaz?

É sabido por todos que quando comparamos uma narrativa com a outra há uma substancial progressão. Pois lá, com o velho e cansado Elias, assistimos Deus providenciar o necessário para que o profeta pudesse continuar combatendo o baalismo no reino do norte, e assim, continuasse catequizando Israel, a fim de que este não fosse seduzido e não caísse na idolatria. Já com Jesus, o movimento ganha em continuidade, pois Deus não apenas provê o que é essencial para seu Filho, haja vista que Ele tem uma dimensão humana, senão que, através do seu Jesus, Ele, o Pai, age manifestando toda a sua glória e seu poder.

Contudo, para ter essa percepção é preciso abertura interior. Quem não a tem continuará na mesma superficialidade de alguns interlocutores judeus, da época de Jesus. Sim, estes viram a Jesus, conversaram com Ele, questionaram-no, puseram-no à prova, mas não se convenceram acerca Dele. E, por quê? Precisamente porque não tiveram abertura interior suficiente para perceber o amor providencial contido na glória e no poder de Deus, manifestados plenamente em Jesus.

O pão, uma vez consagrado, perde a sua dimensão finita e material e ganha em divindade e eternidade. Uma vez celebrado, conforme os moldes da Igreja, torna-se aquilo que de fato é: Pão dos anjos. E isto não depende necessariamente da fé do crente participante de liturgia. Mas, para que este Pão, providenciado pela Trindade, encontre espaços no eu pessoal e no eu comunitário, faz-se necessário ter o que, no Antigo Testamento, teve Elias e, no Novo Testamento, teve Jesus: abertura interior!

Que tal pedirmos ao Pai que, por meio do seu Filho e na ação do Espírito, consigamos abrir os olhos do nosso coração, a fim de enxergarmos o seu Amor providencial, que perpassa toda a nossa vida?

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