Homilia: Jesus e o surdo-mudo! (Marcos 7, 31-37)


 

A narrativa evangélica, que nos é apresentada na liturgia deste domingo, constitui, definitivamente, uma espécie de “soco em nosso estômago”. A cena é profunda por demais para ser entendida na sua totalidade, os personagens são poucos e, ao mesmo tempo, muitos. Mas, o encanto se dá pelo cenário. Sim, o ambiente geográfico dizia respeito à região da Decápole, isto é, região de dez cidades, todas geograficamente situadas na Palestina oriental e que foram fundadas, provavelmente, em 63 a.C.

Lá, viviam povos helenistas e, portanto, não tinham obrigações diretas com a fé judaica. Mas, o bonito é que Jesus não teve medo de visitar esta aldeia pagã, distante e estrangeira. Lá, Ele encontrou-se com um surdo-mudo. Para além da riqueza literária contida nesta cena, faz-se necessário abordar aspectos teológicos e catequéticos da mesma.

O marginalizado carregava consigo duas grandes deficiências: a falta de audição e a mudez. Por ambas, ele estava decididamente privado de comunicação e relacionamentos. Se a linguagem é um meio privilegiado de comunicação, o surdo-mudo era um homem que tinha dificuldade em estabelecer laços, em criar amizades e manter contatos. Ele estava condenado a carregar, eternamente, em seu corpo, esta impureza, haja vista que a doença, na época de Jesus, era considerada um castigo e, portanto, uma impureza.

Por outro lado, além das deficiências que portava consigo, este pobre homem recebeu a maldita sorte de ser cidadão de uma região maldita para a teologia judaica. Tudo em sua vida foi transformado a partir de um encontro com Jesus. Jesus o toma pelas mãos, olha-o, dialoga com ele e ordena que a cura aconteça.

O que representa, para a catequese de Marcos, este fato miraculoso, numa terra estrangeira e, consequentemente, pagã? Representa o jogo da vida! Viver é, mais ou menos, assim: para Jesus, não importam a minha árvore genealógica, nem tampouco as minhas enfermidades, sejam elas de origem crônica ou genética. Pois, que sentido teria viver num palácio quando o coração não consegue amar, o ouvido não consegue ouvir, a boca não consegue falar e o nosso eu não consegue se relacionar? Ah! Quem dera entendêssemos que dentro de cada eu humano ainda vive um pequenino surdo-mudo!

Mas, o que isto significa? Este pequenino surdo-mudo, que habita cada eu humano, diz respeito às dimensões sisudas, aos esquemas estreitos, às caridades assistencialistas que, reiteradas vezes, fazemos tão somente para suavizar e atribuir sentido à nossa existência.

O surdo-mudo não foi até Jesus; antes, ele foi levado até o Nazareno. Isto, talvez, seja um recado catequético para nós: chega um tempo em nossa vida, que, ainda que estejamos instalados e estacionados no próprio eu, Deus por meio do seu plano providencial, porá pessoas ou situações que nos levarão a Ele. Pois, se um dia passamos a existir, por causa do amor de Deus, é justo e necessário que, num dado momento da nossa vida, retomemos esse laço incorruptível de amor e comunhão.

E, por fim, Jesus olhou para o céu. Ele bem sabia que o céu é a casa do seu Pai. Quando os problemas se avolumarem, os relacionamentos se afunilarem e negativamente se estreitarem, quando as incompreensões baterem à porta do nosso eu, no jogo dos relacionamentos, lembremo-nos: Deus está no céu, Ele é nosso Pai, e, em Jesus, Ele tornou-se o nosso amigo.

Olhemos para o céu, entreguemos a Jesus as nossas deficiências e peçamos a Ele que faça em nós o que Ele um dia fez na vida do surdo-mudo.

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