Homilia: É o interior que revela o exterior!  (Marcos 7,1-8.14-15.21-23)


 

Encontramo-nos diante de uma cena evangélica dura, contenciosa e difícil de ser resolvida. Na década de 60, data provável da escriturística do evangelho de Marcos, havia na comunidade um questionamento.

É sabido, por todos, que, na primeira geração cristã, muitos que se convenciam acerca da doutrina pregada por Jesus e seus apóstolos, viviam ainda com um pé na sinagoga. Pois, num primeiro momento, o cristianismo vivia dentro do judaísmo e, de algum modo, as coisas se ajeitavam. De acordo com tradições recebidas da Torá, o judeu precisava seguir 613 leis, dentre estas, 248 eram de formulação positiva e 365 de formulação negativa.

Diante desse imenso jogo do que pode e do que não pode ser feito, o neoconvertido cristão se perguntava: para seguir Jesus é preciso praticar fidedignamente os 613 preceitos? Para os doutores da lei, escribas, fariseus e saduceus: sim. Estes homens estavam geograficamente situados na Palestina, desenvolviam parte do seu trabalho religioso na Galileia, uma cidade aberta aos pagãos. Todo e qualquer contato com um pagão tornava a pessoa impura e, definitivamente, descartada do convívio social, até que ela fosse restaurada pela lei e pelo preceito.

Mas, para Jesus, a fonte das impurezas, o pontapé inicial da malícia e da maldade, a fomentação da impureza como tal não consiste no movimento do pode e do que não pode. Antes, a pureza verdadeira brota da capacidade madura que vive dentro de cada eu humano. A purificação sincera nem sempre requer o símbolo externo, pois ela nasce no coração evangelicamente pobre e que sabe que, neste mundo, não é o centro do universo, e, por isso, relaciona-se sempre mais para encontrar Deus no mistério da fé e no convívio social com os demais.

Para Jesus, estes grupos deturpavam a genuína fé de Israel. Viver a fé não é bater ponto na porta central da comunidade, nem tampouco confundir rezar com bater o queixo, menos ainda correr dos problemas concretos da vida para esconder-se na comunidade religiosa. Isso seria uma vivencia disfarçada da fé.

Vive a fé, observa os mandamentos, é zeloso no rito e coerente nas normas, aquele que, no cotidiano de sua vida, aprendeu a amar como Jesus. Pode-se, por ocasião de um almoço, não dispor de água para purificar as mãos, mas, jamais deveria faltar, na face de um batizado, um sorriso sincero e um aperto de mão afável. Pode-se atrasar alguns minutos para a celebração porque, mesmo o sinal estando aberto, decidiu-se deixar o outro passar, contudo é inconcebível chegar na celebração triste e vazio e dela sair seco e sem sentido.

Pode-se admitir os cabelos brancos na cabeça, porém, jamais se deve permitir rugas no coração. E, por que padre? Porque a verdadeira religião começa no movimento livre e decido do coração e se exterioriza nas atitudes da vida.

Peçamos a Deus que, através do Espírito de Jesus, seja amadurecido em nós o eu interior e, quando este estiver limpo, maduro e pronto, possa a nossa vida demonstrar, com atos, que o amor é uma realidade gloriosa e visível e, sobretudo, essencial para mantermos um bom relacionamento na comunidade humana.


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