Homilia: Bartimeu, o discípulo que enxerga! (Marcos 10, 46-52)

O caminho tem sido longo, a proposta difícil, a lógica aparentemente controvertida, e, diante de um cenário como este, nada melhor do que devolver a visão a um cego, quando se percebe que ao seu lado existe um grupo de discípulos estatualmente cegos, existencialmente limitados e,  consequente-mente, incapazes de aderir e abraçar a filosofia do Reino do Pai de Jesus.

O episódio evangélico nos situa na cidade de Jericó, um verdadeiro oásis situado às margens do Rio Jordão, a cerca de 30 km de Jerusalém. Lá, Herodes, o Grande, edificou um luxuoso palácio de inverno. No centro da cena, um mendigo cego, com o nome de Bartimeu, isto é, Filho de Timeu.

Os cegos faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade da Palestina. É sabido que toda e qualquer deficiência física era considerada, pela teodiceia oficial, uma maldição, fruto do pecado. Eles acreditavam que Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira, sobretudo, era considerada uma das culpas mais graves, pois o ser era impedido de estudar e conhecer a Lei.

Ora, sabendo que os textos evangélicos foram escritos com finalidades catequéticas, pois nenhum deles deveria ser interpretado à luz de um fato jornalístico, que catequese o evangelista Marcos queria propor à sua comunidade? Quem, em definitivo, seria este cego? Ele representa ou poderia representar alguém?

O cego está sentado à beira do caminho e ali pede esmolas. Além de ter sido condenado pela cegueira, a vida lhe ofereceu mais um fardo: a extremada pobreza. Sentado, ele estava a pedir e implorar pela bondade alheia. Uma postura que nas escrituras significa acomodação e conformismo. Porém, em instantes, a sua vida não será a mesma.

Jesus de Nazaré, ao passar pela estrada e ver a situação de miserabilidade, de dependência e de escravidão na qual estava Bartimeu, para diante dele e lhe diz: “Coragem! Levanta-te, que ele está te chamando”.

A passagem de Jesus na vida de alguém deveria ser sempre assim. Quando Ele nos visita é até normal e entendível que estejamos cabisbaixos, desanimados, desiludidos, sem norte nem rumo. Mas, ao vê-Lo passar, ao tocá-Lo, ao olhá-Lo e ao deixar-se ser tocado e olhado por Ele, deveríamos sentir o ardor do desafio, a fagulha da atividade; deveríamos sentir o despertar da consciência e, tal como Bartimeu, deveríamos jogar o manto e seguir o curso.

E mais, como na vida não basta ser apenas visitado, tocado e curado, deveríamos ter a inteligência sapiencial de Bartimeu: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”. O que isto significa? É preciso ser perdoado também. Pois, assim, tornamo-nos o mais novo membro da sua família. Ainda que a multidão queira nos calar, ainda que as estruturas opostas queiram silenciar a nossa voz e colocar inúmeros obstáculos, devemos ter a atividade pronta e certeira de Bartimeu, a perseverança livre e singela do mesmo, a ponto de elevarmos mais fortemente a nossa voz: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”.

Quando se encontra com Jesus, o homem e a mulher não deveriam querer outra coisa a não ser segui-Lo. Tudo o que Bartimeu tinha consigo, ele deixou para trás: jogou a capa, abandonou o ponto, nem se lembrou das moedas ajuntadas e, imediatamente, seguiu a Jesus. Aquele cego precisou apenas de um encontro para ter os olhos do coração mais clarividentes que o grupo dos discípulos que O seguia há anos.

Que capa, eu e você precisamos jogar para seguir o Mestre? De qual assento precisamos nos desfazer para nos desvencilharmos de nós mesmos rumo a Jesus?

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