Homilia: Advento é Libertação! (Lc 21, 25-28.34-36)

Hoje, com o primeiro domingo do Advento, inicia-se, em toda a Igreja, um Tempo Novo. Embora a narrativa cause uma espécie de medo e até pavor, este não é seu objetivo principal. Tecnicamente, trata-se de uma linguagem apocalíptica, cercada de imagens chamativas singulares, mas que possui uma finalidade catequética e simbólica.

A grande tônica evangélica é: levantai a cabeça, recobrai a alegria, tomai ânimo, porque se agora sofremos, por causa do nome de Jesus, em breve, Ele voltará. E, nesta ocasião, libertará os oprimidos, saciará os famintos, rejuvenescerá os anciãos, alegrará os cansados, abatidos e tristes.

Mas, essa mensagem tem sido proclamada há muitos séculos. Paulo falava sobre isso, intensamente, em sua Primeira Carta aos Tessalonicenses; os Padres da Igreja passaram décadas crendo na mesma possibilidade. E, nós, até hoje, em toda Celebração Eucarística, afirmamos dogmaticamente: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.

Ora, afinal de contas, Jesus voltará ou não? Sabe-se que, em teologia, a melhor expressão é: “Virá!”. Sim, Ele virá. Porém, esta afirmação requer uma anterior: Ele virá; todavia, Ele sempre está conosco. Ele veio uma primeira vez nas vestes finitas e limitadas da nossa humanidade. Aliás, para este evento estamos nos preparando. Ele vem, sempre que homens e mulheres se reúnem e dele se lembram. E, Ele virá, sobretudo, por ocasião da nossa partida deste mundo, rumo à casa do Pai.

Este movimento é acelerado pela fagulha da libertação. Celebrar o Advento não é cruzar os braços frente a um sistema que ameniza o ser humano e, negativamente, apequena-o, fazendo-o perder sempre mais sua dignidade. Tampouco é conformar-se com máximas corriqueiras: “Deus quis assim, não tem problema”. Jamais! O cristão, uma vez convicto de sua pertença ao Reino de Jesus, deve abrir os olhos do interior e as janelas do coração. É convidado a provocar, no mundo, o que o bom fermento causa na massa e o que o fogo provoca na lenha seca.

Eis o verdadeiro Advento: incomodar-nos de dentro para fora, fazer-nos perceber que, mesmo em meio ao sofrimento e dor, Deus, em Jesus, nos ajudará nesta empreitada protagonista, responsável, evangélica, jamais, partidarista ou ideológica. E, mais: ainda que ocupemos nosso lugar de protagonistas nesta história, haverá coisas a serem feitas, pois estas estão longe do nosso alcance de solução. Exemplos: dor, velhice e morte!

De tais padecimentos, nenhum ser humano está totalmente imune e, portanto, livre. E estas fatalidades jamais cessarão, enquanto aqui estivermos. Somente o Pai, através do Filho e do Espírito, poderá nos libertar de tais acontecimentos. Isso significa que, enquanto aqui estivermos, devemos fazer da nossa terra o céu. Porém, em última instância, a terra jamais será em plenitude a casa perfeita e iluminada da Trindade.

Hoje, que tal se nos abríssemos, a partir de dentro, e permitíssemos que a Celebração Eucarística causasse em nós: libertação diária, até o dia em que Cristo realizará em nós a libertação definitiva e eterna?

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