Homilia: A Oferta da Viúva! (Mc 12, 38-44)

O cenário se passa em Jerusalém. Certamente, o clima estava bastante tenso e penumbroso, pois, de um lado, tem-se Jesus de Nazaré, fecundo em humanidade e especialista nas coisas do Pai. Ele sabia perfeitamente que religião nada tinha a ver com abuso de poder, comércio corrupto e construção distorcida e alienante da imagem de Deus.

Para Jesus, a melhor maneira de confundir os grandes é olhar os pequenos. O modo mais eficaz de adultizar os prontos é observar as crianças. A saída mais fecunda para catequizar os ricos (cheios de si) é perceber a presença dos pobres em espírito. De um lado, um grupo seleto, respeitado, admirado, temido, composto pelos doutores da lei. Do outro, um ser indefeso, pobre, marginalizado, excluído, sem vez nem voz: uma viúva.

Todos, ao aproximarem-se do cofre do Templo, davam com abundância, porém, ao fazerem isso, se exibiam e caíam no mar do próprio orgulho. Enquanto que, dentre estes, havia uma pobre viúva que tirou do seu alforje a menor entre as moedas do mundo palestinense.

Ora, por que, no ver de Jesus, a menor oferta se tornou a maior aos olhos de Deus? Por causa da moção do coração. A oferta da pobre senhora não foi mais valorizada pelo simples fato de ser ela pobre, mas porque ao doar colocou na sua doação amor e generosidade. E foi graças a tais ferramentas que seu ofertório ganhou em qualidade, frente aos demais.

A fineza de uma doação não consiste no valor quântico, senão na sinceridade interior que leva o ofertante a doar. Afinal de contas, só doa desse modo quem na vida já entendeu que tudo é dom, tudo é Dele, somos apenas administradores.

No passado, quando Israel vivera um tempo difícil de seca e fome, o profeta foi alimentado graças à bondade de uma viúva. Mas, desde que existimos é sabido que os atos mais heróicos da humanidade sempre se deram nos rituais mais simples da vida. Sim, podemos encontrá-los: na mãe de família que parte e reparte para alimentar os pequenos; nos vilarejos mais escondidos do Brasil, onde o vizinho, geralmente, é compadre ou comadre; ali, o sal é dividido, o doce é partilhado, o milho reúne famílias à mesma mesa e a vida segue seu curso de modo doce, leve e positivo, pautada na partilha e no sentimento comum.

A viúva pobre causou interrogação para os contemporâneos de Jesus. Hoje, esta figura simples e afável ainda é capaz de nos questionar? Ou já fomos engolidos pela lógica quântica e matematizada do mundo moderno: “Cada um cuide do que é seu e o outro que se vire”? Provavelmente, a narrativa evangélica nos pede uma posição: compaixão. Quem a tem, não deveria se conformar à lógica da sociedade do bem-estar individual. Quem a executa, do jeito e do modo de Jesus, pode mudar os esquemas podres e legalistas do mundo atual. Quem se convenceu a esse respeito intui que pode não conseguir mudar o mundo, na sua total globalidade e conjuntura, mas mudará seu mundo local, seu seio familiar, seu ambiente de trabalho e seu grupo de amigos.

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