Homilia: A lei e os pequenos!  (Mc 2, 23 – 3,6)

Encontramo-nos diante de uma cena evangélica fascinante, singular e perspicaz. A tônica da problemática se dá por causa do dia: era um sábado. Todos sabem que o sábado sempre fora um dia sagrado para os judeus e, portanto, era proibido qualquer tipo de trabalho.

Aproveitando a situação, e certo de que precisava catequizar, Jesus pegou duas situações concretas e deixou, para os presentes, os respectivos questionamentos: o que fazer quando homens sentem fome? Não se deve dar-lhes de comer só, e somente só, porque é sábado? E, como se comportar diante dos que sofrem? Caso tenhamos em mão a solução, esta não pode ser dada simplesmente por ser sábado? Para a surpresa do leitor, o evangelista frisa que os presentes se calaram!

Jesus olhou entristecido para aquela assembleia porque percebeu que ela não tinha entendido o lugar da lei, diante das relações humanas. A lei foi e continua a ser necessária, tanto para a convivência política quanto religiosa. Jesus não a desprezou. Mas, a lei, quer seja no seu ontem, quer seja no seu hoje, precisa estar a serviço da pessoa e da vida. A lei não pode estar acima de tudo, em todas as circunstâncias da vida. Reiteradas vezes, ela necessita ser corretamente interpretada, não para abrir nela um “pequenino jeito”, mas sempre visando o bem comum.

A cena evangélica, se olhada apenas na sua superfície, parece conter em si uma profunda tensão. Pois, o dia é sábado, o que significa que todos devem olhar totalmente para Deus e somente nele fixar o seu olhar. Mas, “controvertendo” esse valor, Jesus (Filho Unigênito e Primogênito) prefere fixar o seu olhar em homens que sentem fome e no enfermo que tem a mão paralisada. Ora, o que significa um absurdo como este? O que está fazendo Jesus? Não estaria Ele pondo o homem no lugar de Deus?

Certamente, não! Jesus sempre soube que o sonho do Pai era reunir os criados, extinguir a desigualdade, libertar a pessoa a partir de dentro, tirando-a da margem e trazendo-a para o meio. Ao curar aquele ser paralisado, aparentemente Jesus parece infringir a lei, mas, teologicamente, Jesus continua fazendo o que Deus sempre fez: criar para curar e libertar. Tendo isso em vista, Jesus não se apartou das tradições do Antigo Testamento. Pois, desde lá, Deus sempre se interessou pelos pobres, pelos órfãos, pelas viúvas e pelos doentes. Aí sim, “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”.

Aos olhos da modernidade, que visa o lucro e o ter, Jesus, nesta empreitada, afinal de contas, preferiu colocar em xeque uma tradição ortodoxa e firme para ficar do lado de famintos e doentes. Uma opção lamentável para quem tenta ler esse texto com os óculos da modernidade. Mas, para quem O enxerga aos olhos da fé fica evidente, mais uma vez, que Deus prefere os pobres e os desprovidos, aos fartos e cheios de si.

Aos famintos, Ele deu de comer, àquele que sofria de paralisia, Ele devolveu a possibilidade do movimento. Tudo ocorreu em um dia divino e num lugar sagrado. O que faríamos nós, no lugar de Jesus? Nadaríamos contra a correnteza de uma lei forte e vigorosa, para ficar do lado dos pequenos e abandonados? Ou antes, apoiaríamos o sistema e o aplaudiríamos, enquanto os “juízes” condenariam os pequenos?

Leave Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *