Entrar no quarto, entrar no coração! (Mt 6, 1-6.16-18)

O que fazer quando um barulho atordoante e lúdico nos tira de nós mesmos? Quando a máscara, o enfeite, a fantasia levam-nos a acreditar que a vida é uma festa e que toda alegria só nela reside, precisamente porque, quando festejamos, sentimo-nos mais livres, leves e soltos?

O que fazer quando a única fama que carregamos, enquanto nação brasileira, reduz-se, apenas, a Carnaval e Futebol? O que fazer quando somos acometidos pela verdade, tão difundida, de que no Brasil, “tudo começa a funcionar, somente depois do Carnaval”?

O que fazer quando nossas liturgias foram, durante o ano, tão asfixiadas pela pressa humana, músicas indevidas, gestos mal presididos, pela preguiça leiga e imaturidade batismal? O que fazer quando passamos o ano inteiro vindo, dominicalmente, à Missa, e esta, por sua vez, não encontra espaços dentro de nós?

É preciso voltar à modalidade antiga: “Entrar no quarto / fechar a porta / rezar ao Pai / e este, dar-nos-á a recompensa”. O que significa isso? Que Deus encontra-se, apenas, trancado num quarto? Que não podemos senti-lo noutro lugar? Por que, Alguém tão grande, esconder-se-ia num lugar tão insignificante?

Atentemo-nos! Entrar no quarto não significa medir, qualificadamente, a essência de Deus; antes, indica uma atitude de intimidade. O quarto representa, para o homem judeu, o cômodo mais íntimo de um lar. Ora, entrar no quarto significa entrar na intimidade do próprio coração: não ter medo de peregrinar do barulho à calmaria, do externo ao interno, do frívolo ao tranquilo, do colorido lúdico e ofegante ao cinzento simples, da magia à simplicidade.

Para o mundo, esta atitude causa: desespero, depressão, angústia, pavor, complexo de inferioridade. Para Jesus, isto significa: oração, autoconhecimento, maturidade, autonomia, santidade. Através deste movimento, a criatura descobre na criação quem é Deus e recolhe ferramentas para responder a pergunta: “Quem sou eu?”.

Meus caríssimos irmãos e irmãs, jogaram contra a Igreja uma acusação injusta: “A culpa surgiu com a religião e a sua difusão deu-se com o Cristianismo”. Isso não procede! A culpa existe desde que o homem tomou profunda consciência acerca de si mesmo; desde quando ele percebeu que nem sempre realizara o bem que sonhara, porque o mal o iludia mais e melhor.

Portanto, vive bem o Tempo Quaresmal quem, neste período, não olha para o outro a fim de incriminá-lo, não procura refúgio e bodes expiatórios projetando suas falhas e fracassos num terceiro, mas quem, de coração aberto, “entra na intimidade do próprio quarto (coração), fecha a porta (exame deconsciência) e reza ao Pai (sinceridade)”.

Fazendo este movimento, experimentaremos, com afinco e esmero, o grito insistente e suplicante da Igreja, que, neste ano, assim ecoa: “Não digo que seja bom para a Igreja este momento extraordinário. Não, não! Digo: a Igreja precisa deste momento extraordinário!”. A Igreja precisa da Misericórdia para continuar sendo “Casa Comum de Misericórdia”!

Pe. José Ancelmo Santos Dantas – Coord. da Feira Vocacional