Desproporção em Perdoar! (Mt 18,21-35)


O evangelho de hoje constitui um grande Manual de Teologia sobre o Perdão. É verdade que a palavra Perdão não foi inaugurada por Jesus. Já no Antigo Testamento, escribas zelosos levavam o povo a guardar no coração o precioso dom do perdão. Inclusive, para fazer parte da casta abençoada por Deus e tornar-se herdeiro da Promessa, por ocasião da vinda do Messias, era preciso executar, de quando em quando, a fagulha do perdão.

Mas, se a palavra não foi trazida por Jesus, qual a novidade desta expressão, quando usada por Ele? A novidade consiste na quantidade que se deve exercer! Antes, perdoar exigia limite, isto é, dependia da situação, da proporção do problema, das pessoas envolvidas e, sobretudo, da quantidade de vezes que era recorrido o pedido de perdão.

Agora, com Jesus, por mais que sete fosse o número da perfeição na cultura semita, era muito pouco, para expressar o amor de um coração, que nas estradas da vida, encontrou-se com Deus. Abrindo as comportas da velha matemática, (de 07 / por 70 x 07), Jesus não quer em definitivo, tonar o perdão uma brincadeira a ser contada ad eternum, nem tampouco um jogo pueril e lúdico, tal qual encontramos nas rodas juvenis, no entardecer dos nossos dias. Não!

Antes, Ele (Jesus) quer que experimentemos a verdade que se encontra na desproporção entre um coração aberto e outro fechado. O primeiro sabe que precisa relevar, às vezes até protelar, consentir, não para permitir, mas para ajudar o perdido a se encontrar, o distante a se aproximar, e o frio a se aquecer. O segundo, embora saiba que precise, não consegue trabalhar a dimensão da gratuidade, da tolerância, vive tão somente para apanhar o outro na margem do abismo; quem sabe, assim, isto não sirva de conforto e bálsamo para sua medíocre vida também.

É verdade que a lógica de Deus é muito diversa da nossa, porém há iniciativas em muitos seres humanos, que logo nos fazem pensar: “Creio que se Jesus estivesse fisicamente aqui, Ele faria do mesmo modo”. E um exemplo disso é o Perdão! Só quem aprendeu a ser grato é que sabe como é bom ter uma segunda chance na vida. E sabe que não existe outro caminho para levar a termo a sua vocação, a não ser pela via dolorosa, mas bonita e viva do perdão.

A falta deste estaciona-nos, envelhece-nos, entorpece-nos de egoísmos, raivas, ressentimentos e, ao invés de abrimo-nos para a primavera do amor, afundamos no vazio do nosso nada, nas síndromes da nossa insuficiência, no azedume da nossa mesmice, na incapacidade de fazer frutificar os dons recebidos.

E aí? Que personagem queremos ser: aquele de coração aberto que, ao ouvir o clamor do outro, sentiu compaixão e perdoou? Ou antes, o fechado, o estreito, que pesado pelos machucões da vida, saiu do encontro do perdão e não soube fazer outra coisa na vida a não ser ferir o outro? Decidamos pelo perdão, porque quem perdoa de coração, desenvolve dentro si moléculas de Céu…

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