Despertos em Cristo! (Lc 9, 28b-36)

Encontramo-nos diante de um texto evangélico, circulável nos três anos litúrgicos da Igreja: trata-se da Verdade da Transfiguração do Senhor. Incisivamente, o autor ratifica: “Pedro e os companheiros estavam caindo de sono; enquanto isso, Jesus rezava…”.

Como definir as condições de Pedro? Será que naquele momento sentia tão somente sono? Fruto da enfadonha luta diária? Cansado ele estava, pois enfrentara o dilema da “multiplicação dos pães”, assistira Jesus curar a “filha de Jairo”, “confessara seu amor pelo Mestre”, participara do “envio missionário”. Portanto, Simão estava cansado e seus amigos também.

Todavia, há no texto um cansaço de ordem diversa: trata-se do cansaço da alma. Seria a fadiga existencial, que leva ao fechamento, ao egoísmo, à tibieza, à depressão. Esta, devemos temer! Por causa deste movimento sem vida, pessoas têm preferido a morte, a tristeza, o tédio, a angústia. Perdem momentos importantes, simplesmente, porque se envolvem demais no “sono da morte” e se esquecem de acordar.

O que acontece com alguém que não acorda? Ora, na vida prática: perde o ônibus; chega atrasado ao trabalho, à reunião; perde o vôo…

O que acontece quando alguém dorme durante a transfiguração? Ah! Perde o dom da graça de Deus; permanece na superfície; morre na planície da mesmice e da mediocridade humana e jamais experimentará a aventura da águia, isto é, jamais alçará voo. Perde, sobretudo, a capacidade de perceber que, quando se ama, sofrimento e alegria nem sempre são antônimos, cruz e glória nem sempre constituem paradoxo, desde que se entenda e tudo se faça por puro amor.

Jesus transfigurado supõe identidade resolvida, missão abraçada, vocação rejubilada, “sim” dado e vivido. Supõe coração integrado, livre; fruto de uma autonomia invejável e maturidade singular. Jamais esqueçamos! Deus tem um sonho para todos nós: transfigurar-nos!

Isto acontecerá quando entendermos que nunca seremos Santos, enquanto não nos aceitarmos como tal; que nunca seremos transformados, enquanto dormirmos pesadamente e nos acostumarmos com a banal ideia: “Deus me ama, portanto, nada preciso fazer; Ele tudo faz por mim!”.

Hoje, deveríamos, também, somar-nos a Pedro, não só no sono e cansaço existenciais, mas, e, sobretudo, no tocante à sua profissão de fé: “Senhor, é muito bom ficarmos aqui. Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias”.

Mas, isso pressupõe subir a montanha, o que não significa revestir-nos de uma fé imatura e instável, colocar um pesado vaso de água nas costas e sair gritando pelos montes. Não! Subir a montanha, antes, significa: permitir ser visitado pelo amor de Deus, criar laços fecundos de intimidade e proximidade com Ele; aprender que quem ama não se permite o sono existencial, mas conserva os sentimentos e o coração bem acordados, porque quem ama cuida, repara, olha, está junto.

Transfigura-nos, Senhor, levanta-nos e faz-nos entender, a partir de dentro, que pobres não são os que têm pouco, mas os que deixam o cansaço da alma reinar!

Pe. José Ancelmo Santos Dantas – Coord. da Feira Vocacional