Conciliação entre Ideal e Real! (Lc 4,1-13)

O presente texto perde, e muito, em historicidade, entretanto, ganha substancialmente em catequese e verdade. Um cenário magnífico! Jesus e, com Ele, todas as possibilidades para ter debaixo dos pés ferramentas tão sonhadas pela humanidade: poder, força, ganho, prestígio, crédito. No fundo, Jesus pôde se deparar com o choque antigo e sempre novo entre: ideal e real! Idealmente falando, seria justificável abolir toda e qualquer necessidade material, em nome da Divindade que carregava em si. Certo da sua missão e vocação, mais que ninguém, Ele sabia, que seu caminho fora traçado por um plano chamado: Pai!

Ele não teria problemas em repelir a dor, afastar as calúnias, reprimir os fracassados, dividir o mundo entre “benfeitores de grande porte e valia, de benfeitores menos abastados”. No entanto, não o fez. Simplesmente, se aproximou daqueles que o mundo condenou, amou-os, elegeu-os, trouxe-os da periferia existencial, em que viviam, e colocou-os no meio. Este grupo recebeu um nome, um título, um slogan: “Cristãos”! Cristo soube trabalhar a dureza da sua realidade, com o simbolismo do ideal que carregava no coração! Nele, não houve antagonismo entre estas duas propriedades!

Como Ele, hoje são verdadeiros cristãos todos aqueles que, embora vivam num deserto, imenso e sem sentido, aprendem, com as cruzes das estações, que o ideal nunca pode se perder em meio ao real; e que nunca podem abandonar o real em nome de um ideal espiritualizante e sufocante que mata, desumaniza, destrói, divide.

Quando a humanidade alimentava impulsos, tais como: poder, glória, fama, força, aparência, lutas, conflitos… Deus interveio, apofaticamente, em Jesus, mostrando uma lógica diversa e um amor controverso, para não dizer ridículo, a fim de nos acordar do sono eterno e existencial, no qual a criatura vivia imersa.

O que representa a figura de Jesus no deserto?

  • representa todo homem e mulher que certos do seu real, não deixa de perguntar ao Criador pelo seu ideal;
  • representa o caminho, a peregrinação, a via do autoconhecimento que todo ser batizado é chamado a trilhar;
  • representa a figura de todo(a) missionário(a) que, por amor, jamais por créditos à Sé ou a outras instâncias, é capaz de deixar tudo, no afago da sua terra e lar, e joga-se rumo à terras desconhecidas;
  • representa todo(a) vocacionado(a) que, sentindo como que uma brasa amorosa dentro de si, não tem medo, deixa tudo e vai para onde o Senhor o(a) chamar;
  • representa todo pai e mãe de família que, amorosamente, dá o seu melhor na educação dos filhos, a fim de vê-los felizes e idealizados na vida.
  • enfim, representa toda assembleia dominical que, sagradamente, vai à Missa, certa de que, diante do altar do Senhor, celebrando mistericamente Sua entrega por nós, nesse deserto bonito de amor, encontrará ao menos forças para vencer todas as tentações do mal.

Viveremos bem este Tempo Quaresmal se, a exemplo de Jesus, não tivermos medo de professar quem somos e de onde viemos (real); nem tampouco, o que queremos conquistar e onde deveremos chegar (ideal)!

Pe. José Ancelmo Santos Dantas – Coord. Feira Vocacional