As Águas da Vida! (Mt 14,22 – 33)


Estamos diante de uma das mais profundas cenas evangélicas dissertadas no Novo Testamento. Já é do nosso conhecimento que, para a velha teologia do Judaísmo, o mar era um ambiente hostil. Lá, criam eles, era hospedagem dos espíritos maus, lugar dos monstros, casa dos demônios, habitat da força negativa e extraordinária. Por isso mesmo, ser pego pelas águas, era sem dúvida, sinônimo de ser acorrentado pelo mal.

E depois de ter alimentado tantos famintos, de ter trazido alegria para tantos tristonhos e abatidos, de ter experimentado no coração uma alegria contagiante e expectante, eis Jesus, que semelhante bom pedagogo se apresenta para fazer os discípulos entenderem que a vida não deve ser vivida só, e somente só, baseada nas alegrias e levezas; esta também compreende bravuras, desafios, empurrões e penumbras.

O que significa esta imagem? Pedro, tomado pelas ondas de um lago de águas doces, geograficamente pequeno, mas profundamente mitologizado pela velha teologia Judaica? Representa a vida humana que resolve dar passos sem Deus. Ah, e o mesmo, não acontece conosco? Quantos projetos construídos? Quantos sonhos erigidos? Quantas metas traçadas? E em quais deles Deus se encontra?

Munidos por um sistema estreito e vazio, hoje, nós muito mais que nossos antepassados, entramos na esteira do consumo, entregamo-nos às delícias do corpo perfeito e da mente sadia, e, lamentavelmente, colocamo-nos a caminho, sem a mola mestra que faz a vida acontecer: Deus, sua Palavra e seu Amor!

Pedro precisou ver-se afundando, morrendo, naufragando. Precisou assistir o absurdo do que significa tentar sem Deus, para então entender que as maiores decisões requererão sempre as maiores súplicas, que os maiores projetos não se sustentarão sem a presença do seu verdadeiro artífice. Porque dor e alegria, sucesso e fracasso, fome e saciedade, poder e serviço caminham lado a lado, e não apenas do nosso lado, mas dentro de nós.

E o velho Pedro, descendo ao subterfúgio azedo e estreito do próprio eu, precisou clamar, gritar, suplicar: “Miserere Domine!”, para só então perceber que as águas, semelhante à vida que vivemos, não oferecem chão firme, base sólida para sustentar a crença de que podemos viver reféns do próprio ego, como se pudéssemos ter credenciais suficientes para construir a felicidade que tanto almejamos.

Mais cedo ou mais tarde, toda e qualquer vida humana precisará fazer a experiência de Pedro: “Senhor, salva-me, pois estou perecendo!” – seja pela visita amarga de uma frustração, seja pela perda de uma pessoa amada, seja pelo horror da derrota sofrida. E a pergunta que sempre se levantará dentro de nós será: “Mas, por quê?”. Simplesmente porque com Jesus aprendemos que quem não está disposto a beber do fel, nunca saberá o real sabor do mel. Que as maiores vitórias sempre pressuporão os mais adversos fracassos, que não nascemos para viver prontos e aptos a experimentar um f minúsculo, mas, tendo Deus como nosso amigo, Ele, em Jesus, reservou-nos um F maiúsculo, certo, seguro, verdadeiro.

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