Amou-os até o fim! (Jo 13, 1-15)

Toda a vida de Jesus foi marcada pela grande e única HORA. Quando, nas Bodas de casamento em Canaã, foi questionado, imediatamente retrucou: “Minha HORA ainda não chegou”. Nadando contra a correnteza do estreito preconceito, vigente em sua época, não se intimidou diante da mulher e com ela interagiu: “Em verdade, em verdade vos digo, vem a HORA e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai, em Espírito e em verdade”.Quando elevou aos céus sua oração, tão conhecida pela Tradição como “Oração Sacerdotal”, Jesus exprimiu, naquele punhado de palavras, uma mistura de humanidade com divindade. E, sem esquecer a substanciosa palavra “HORA”, exclamou: “Pai, chegou a HORA; glorifica o teu Filho!”. Diferente não fizera ao instituir a Eucaristia, começando pelo rito do lava-pés.

Tamanho absurdo só podia ser presidido, ou por alguém totalmente dominado pelo delírio e esquizofrenia, ou por alguém muito certo de si, livre, em plena consciência. Esta, sem dúvida, era a situação em que se encontrava Jesus!

A cena hoje celebrada é dura por demais para ser entendida, absurda para ser vivida e aceita, escandalosa para ser interpretada. Afinal de contas, lavar os pés de outros nunca fora, na sociedade judaica, trabalho de anfitrião, mas de escravos.

Prezando a liberdade, o amor, a verdade, aceitou descer ao patamar do serviço mais humilde, para mostrar aos homens e mulheres, de todos os tempos, que trabalho algum desvaloriza a pessoa, nem a rebaixa ou escraviza. Enquanto tal, o trabalho por si, dignifica, eleva, introduz-nos na verdade de um relacionamento maduro e fecundo, gerando clima de família e de fraternidade.

Como agir numa sociedade onde todos se digladiam ferozmente, o tempo inteiro, um se sobrepondo ao outro? Como querer ganhar num jogo onde todos os participantes almejam a mesma coisa, e, em nome da vitória, estão dispostos a tudo?

Deus, em seu Filho Jesus, fez o caminho inverso. Assumiu o concreto da dor, do serviço escravo, do peso maldito e, neste ínterim, transformou as ferramentas, até então malditas, em presságio e passaporte para a felicidade.

Todavia, isto tudo aconteceu porque Jesus sempre esteve conectado com o seu Pai. Tudo fazia porque sabia da HORA oportuna e existencial, que céus e terra aguardavam.

Dentre muitos ensinamentos deixados pela Liturgia de hoje, vale a pena ressaltar um: as coisas boas acontecem em nossa vida no tempo certo, na HORA exata.

“Padre, rezo, rezo, rezo e minha família não se converte!”. Mas, será que reza mesmo? Se sim, chegou a HORA do Pai para sua casa? Já somos convertidos? Somos cristãos de fato? Ou só com palavras?

Lavar os pés do outro, literalmente falando, não constitui condição essencial para ser cristão! Mas, descer ao nível escuro e penumbroso da diferença alheia constitui o mais elevado testamento acerca do ser cristão!

No mais, o mundo não acabará por falta de filósofos, teólogos, poetas, matemáticos, pedagogos, falsos cristãos. O mundo degringolará, absurdamente, mais e mais, por falta de verdadeiros cristãos!