A Solenidade do Natal! (Lc 1, 1 – 14)


Incontáveis séculos se passaram e nestes, tradições foram erguidas, ritos e cultos foram celebrados, divindades foram adoradas e cultuadas, escrituras foram compostas, impérios se levantaram e caíram, costumes foram helenizados e racionalizados, e em meio a este vulcão de acontecimentos, entre todas as culturas, credos, povos e raças, o homem sempre elevou á sua divindade diversas perguntas.

Desde cedo no judaísmo reiteradas orações eram no fundo um lamento, uma suplica, um pedido de socorro, uma pergunta. Porque o Senhor Deus permite tanto sofrimento? Porque sofremos tanto? Porque depois de diversos sofrimentos, ainda recebemos como paga a morte? E assim aconteceu durante muitos e muitos séculos.

Daqui de baixo a criatura olhava para o alto e questionava o criador, a criatura falava enquanto o criador quieto estava e nada falava. Os homens e com estes as mulheres perguntavam, mas o eterno silêncio do criador nada respondia a criatura. E cansados de perguntar, quando menos esperávamos, Deus falou, ele rompeu o silêncio impenetrável e em Jesus, menino pobre e frágil nesta noite Deus dá uma resposta.

Qual é a resposta de Deus? Em que língua ele falará? Qual será o conteúdo da sua fala? Lamentavelmente, embora Deus já tenha nos falado, Ele não ofereceu palavras, antes sua resposta foi baseada entre falar e fazer: “A Palavra se fez carne”. E o que isto significa?

Agora Deus não dá explicações sobre o sofrimento, mas sofre conosco; não responde o porquê de tanta dor e humilhação, mas ele próprio se humilha; não responde com palavras sobre o mistério de nossa existência, mas nasce para viver nossa aventura humana; não fornece catequeses sobre pobreza e imigração, mas Ele mesmo nascendo torna-se pobre com os pobres, e estrangeiro com os estrangeiros.

A fagulha de luz que brilhou rompendo a escuridão dos campos de Belém, liturgicamente liberta-nos a partir de dentro da nossa escuridão não mais cronológica, mas existencial, sentimental, psíquica e real. A carência que nossos antepassados tinham quando diante da divindade dobravam os joelhos para perguntar e murmurar, hoje esta insuficiência não deveria compor os compartimentos da nossa vida. Pois, onde quer que estejamos, o que quer que façamos, Deus, em Jesus, está sempre conosco!

Se o calendário gregoriano, estiver exato na sua contagem, podemos afirmar que Jesus nasceu a mais ou menos 2017 anos, logo, em todos os altares da terra pela “Memória” e “Atualização” litúrgicos, fazem dois mil e dezessete ano que ele nasceu, porém enquanto ele não nascer em nosso coração, que razão e fundamento teria sido o seu nascimento para nós?

Celebrar o Natal do Senhor é admitir que Deus, nascendo em Jesus quis revolucionar o estilo, o método e o modo de crer de toda e cada criatura humana. De acordo com a literatura bíblico veterotestamentária, o Messias deveria provir da corte, descender da família real, ser um magnata polido e imune de qualquer questionamento, com uma moral clarificada e fundada na letra israelita, a fim de que ninguém pudesse suspeitar acerca da sua identidade.

Contudo, quando esperávamos um magnata, Deus tomou corpo nas veias de um servo, quando esperávamos um rico, Deus armou sua tenda na vida de um pobre, quando esperávamos um doutor iluminado, Deus apoderou-se de uma criança indefesa, frágil, mas livre.

Por isso, quando as perguntas quiserem levantar-se a cerca da existência de Deus, quando a desconfiança brotar em nós com a mesma força que recebem as sementes depois de apodrecidas na terra lembremo-nos: Deus rompeu o seu misterioso silêncio, encarnou-se, montou sua tenda e hoje podemos perceber na Palavra proclamada, no Pão abençoado, no imigrante que procura auxilio, no feto que não teve direito de vir ao mundo, no pobre que morre de fome, no jovem andarilho pelas esquinas da extinta cracolândia, na senhora que tempera os alimentos para sua família e inclusive no possuidor de muitos bens desde quando administre sua vida como se nada tivesse e tudo o que possui é meramente um dom.

Leave Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *