A Santidade Cristã! (Mt 5,1-12)


 

Amados irmãos e irmãs, encontramo-nos diante de um texto evangélico fabuloso, quer seja na sua estrutura narrativa, quer seja na apresentação de seus personagens, ou ainda, na composição do cenário, aqui criado.

Tal como Moisés fizera no passado, também Jesus subiu ao monte. O primeiro sentira necessidade de ir ao monte para receber a Lei; o segundo lá foi não para recebê-la, mas para dá-la, porque Ele já a tinha dentro de si. Sempre disposto a acolher o Projeto do Pai, Jesus, logo cedo, entendeu que vivem verdadeiramente as Escrituras e a mensagem do Reino não aqueles que a decoram, de fora para dentro, senão os que a interiorizam, de dentro para fora.

Quando isso acontece, significa que a pessoa humana está preparada para iniciar o caminho dadivoso das bem-aventuranças. Aqui, elas são apresentadas como uma espécie de sinfonia inicial, do grande discurso, que Jesus está prestes a iniciar sobre a realidade do Reino do Pai.

Entrar neste caminho implica querer trabalhar categorias absolutas, para a vertente cristã, simplesmente porque as famosas sentenças ou ditos das bem-aventuranças, por um lado nos fascinam e magnetizam, mas por outro nos angustiam. Pois, seguir Cristo supõe ser: pobre, manso, misericordioso, pacificador, perseguido, enfim, significa ser Santo. E aqui, não entendamos santidade apenas como um fabuloso rito de apresentação e entronização aos altares cristãos. A santidade genuinamente cristã dá-se antes na arte do autoconhecimento; ora, como pretendemos falar sobre Deus, se ainda não sabemos quem somos nós? E com quais credenciais nos apresentaremos ao mundo, se nos faltam as essenciais?

Embora o movimento da Santidade comece por ocasião do Batismo, ele se desenvolve mesmo na comunidade, isto é, entre os irmãos que são diferentes, na construção dos sonhos. Porém, jamais deve ser perdido de vista o leme da Santidade, que só se alcança tornando-se mestre de si mesmo.

Ainda acreditamos ser a santidade fruto, em primeiro lugar, dos nossos méritos? Das nossas qualidades e proezas? Dons e timbres? Francisco de Assis precisou se confrontar com o espelho da pobreza encarnada nas vestes de um pobre, para entender que ele só seria bem-aventurado se despojado fosse. Edith Stein precisou acomodar-se no silêncio de um templo e ver uma criança rezar, para entender que silenciar é também um modo de reconhecer a própria pobreza. Tereza de Calcutá, entrando numa estação de trem, movida pela pressa de todos os dias, precisou perder o trem para contemplar a Deus nas feridas de um ser humano ali caído. Teresinha de Lisieux precisou conviver com os atos mais concretos de uma vida e construir as relações mais simples para concluir que a simplicidade é um modo também de ser pobre e bem-aventurado.

Anselmo, José, Maria, Aparecida, isto é, cada qual, e todos nós que, pelo batismo, já fomos convidados a participar da ladainha dos bem-aventurados, também já nos confrontamos?  Os irmãos santificados fizeram a sua parte, mas nós temos feito a nossa parte? Peçamos, nessa solene liturgia, ao Espírito Santo de Jesus, doador dos dons, que abra os nossos horizontes e nos mova sempre mais à graça da Trindade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *