Homilia: A relação entre o Mestre e o discípulo! (Mc 6, 30-34)

A narrativa evangélica de hoje começa com o regresso dos discípulos entusiasmados pela missão pastoral exercida. Ao que nos parece, a missão foi um sucesso e, para além do contentamento e regozijo dos discípulos, que no Evangelho marciano, pela primeira e única vez serão chamados de “apóstolos”, por um lado, percebe-se o entusiasmo pastoral missionário, e por outro, o cansaço nítido e lógico dos apóstolos.

Sequencialmente, Jesus os convida a irem com Ele para um lugar isolado, para descansarem um pouco. Não demorou muito para a multidão perceber onde estava Jesus com os seus discípulos e, nessa paisagem entre povo que procura e discípulos cansados-entusiasmados, Jesus sente compaixão das pessoas, pois percebeu que elas eram como ovelhas sem pastor.

Mas, o que significa esse episódio? Aparentemente, tem tons de banalidade. Todavia, Marcos vai aproveitar este cenário para desenvolver a sua catequese sobre o discipulado. De acordo com a narrativa marciana o discípulo precisa:

  1. Ser enviado por Jesus, porque por Ele foi chamado para levar ao mundo a missão daquele mesmo que o chamou. No ato de anunciar o Reino, o discípulo precisa convencer os homens, convidando-os a que escutem a mensagem do Reino a fim de mudarem as suas vidas;
  2. O discípulo precisa descansar, aliás, o texto tonifica incisivamente: “…pois nem se quer tinham tempo para comer”. A catequese evangélica pretende ser um aviso contra todo e qualquer tipo de ativismo exagerado. Este, por mais das vezes, destrói as forças do corpo e do espírito e leva a perder o sentido da missão. No ato de anunciar o Reino novo, pregado inicialmente por Jesus e continuado pelos discípulos, a eficácia e os frutos dependerão, em primeiro lugar, da graça divina e não do esforço humano;
  3. O discípulo é convidado por Jesus a ir com Ele para um lugar isolado. A narrativa não dá o nome do lugar. Mas, o discípulo é tão amigo do Mestre que até no seu descanso precisa estar ao seu lado. É ao lado de Jesus que o verdadeiro discípulo deve estar. Quando foi chamado e eleito, o foi por Jesus. Quando foi enviado, quem o enviou foi Jesus. Quando saiu pelo mundo a anunciar a mensagem do Reino, o fez em nome de Jesus. E agora, mesmo na hora de descansar, o discípulo deverá fazê-lo ao lado de Jesus.

Jesus é agora não apenas um Mestre, um Amigo para o discípulo. É muito mais! Ele deve ser o confidente, o “cúmplice”, o sonho, o projeto, o ar do discípulo. E o discípulo precisará sempre mais entender que a glória do seu trabalho não está baseada no seu próprio DNA, senão em Deus.

O resultado da ação missionária não se dá graças ao profissionalismo do discípulo. Afinal de contas, não somos uma Igreja pelagiana, como nos alerta, em sua última exortação apostólica, o Papa Francisco. Pelo contrário, a eficácia do nosso trabalho e, portanto, a maestria do mesmo é sempre graças à ação de Deus, que, em Jesus, através do Espírito, habita em nós.

Outrora, os discípulos, aqui chamados tecnicamente de “apóstolos”, partiram, deram conta da missão e voltaram para o balanço. Mas, quer seja no movimento inicial (chamado), quer seja no envio (missão) e muito mais num balanço (cenário do Evangelho de hoje), em todas as circunstâncias estava o Mestre Jesus. Começa-se sempre por Ele e com Ele desenvolve-se, sempre por causa Dele, e não seria justo concluir sem que estivesse do lado Dele.

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