A opção vocacional e a Cruz! (Mt 16,21-27)


Com o presente texto evangélico, chegamos a um novo patamar. Antes, acompanhavam Jesus as multidões, e, nestas, não faltavam curiosos, observadores, ilustrados, possuidores de muitos bens. Mas, agora, as multidões parecem ter desistido, os curiosos já obtiveram respostas para suas perguntas, os ilustres já se completaram, e, com o Jovem Mestre, restaram apenas seus discípulos. Isto é, um punhado de homens, e certamente algumas mulheres, que ao longo da estrada foram se convencendo acerca da proposta do Reino dos Céus.

Acontece que com este Evangelho parece ter caído sobre as mãos e o coração dos discípulos uma espécie de bomba: “Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas”. Tamanha sentença simplesmente fez levantarm-se, no interior de cada discípulo, um volumoso conflito, uma estupenda guerra, um mar de oscilações, onde fé e dúvida, pergunta e resposta, confissão e negação, tudo e nada, puderam se encontrar.

Pedro expressa, dogmática e sistematicamente, algo que todos sentiam dentro de si mesmos: “Deus não te permita tal coisa Senhor!”. O que significa esta exposição petrina? Uma covarde traição? Uma horrenda negação? Um absurdo jamais esperado? Não! Isto representa o interior de todo vocacionado! Inicialmente, todo e qualquer vocacionado sabe que vive o que viveu o profeta Jeremias, no teor da escravidão babilônica: “Seduziste-me Senhor e eu me deixei seduzir”. Porém, com a estreiteza das opções tomadas, com o afunilamento do caminho, com a profundidade do Mistério que exige sem massacrar, que cobra sem corromper, que pergunta sem ferir, sentimos, reiteradas vezes, o que Pedro sentiu: “Deus te livre de tal coisa Senhor”.

E, como filhos e filhas de tempos modernos, logo somos tentados a concluir: Deus nos enganou, Deus nos traiu, Ele nos escondeu a verdade! Jamais! Nós é que constantemente esquecemos que viver não deixa de ser um risco, que opções abrandadas e cobertas de leveza e superficialidade tendem sempre a esfacelar-se, que sonhos, por si mesmos, jamais poderão se imortalizar se não contarem com a Fé, o Amor e a Cruz.

Acaso os casados não se recordam de como o amor corria volumosamente no início do Matrimônio? Os consagrados esqueceram que inicialmente o gás pela missão e entrega de si mesmos ardia com muito mais precisão e ligeireza? Os que chegaram à idade adulta ou anciã não se recordam de como na juventude enfrentavam tudo com facilidade e rapidez? E a pergunta que brota de tais questionamentos é: “Por quê?”. Porque, como ensina o dito popular, “tudo no começo são flores!”.

E, certamente, a única opção, que nos resta na vida, para transformarmos estas flores, que no início brotam em grande quantidade, em pétalas duradouras e eternas é passando pela loucura da Cruz. Pois, para nós cristãos, abraçá-la não é encaminhar-se para o fim, nem tampouco fazer apologia ao masoquismo, senão caminho de encontro, estrada de autoconhecimento, via real e sincera, porque nos leva aos outros e a Deus, depois de nos ter levado ao epicentro do nosso próprio eu.

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