A Semente e o Terreno! (Mt 13, 1 – 26)

Encontramo-nos diante de um texto clássico. Um discurso, longamente preparado nos moldes de uma estória, é chamado, tecnicamente, de parábola. A parábola é uma forma de discurso, muito usada no Oriente, ambiente em que a mentalidade semita cresceu e aprendeu a dar razão às coisas que acreditava. Entre nós, ocidentais, herdamos a capacidade helênico-grega de racionalizar, conceituar, descrever, por meio do discurso impositivo, lógico, questionado e matematizado.

O evangelista Mateus, preocupado com a vida da sua comunidade, pois o fracasso aparente e o desânimo crescente ainda rondavam a vida dos cristãos, retoma esta parábola, outrora contada por Jesus, para fazer com seu povo o que, no Exílio da Babilônia, diversos profetas fizeram: “Coragem, o Senhor não nos abandonará!”.

E, por meio deste grande ensaio, o evangelista consegue deixar seu recado: “Muitas foram as sementes lançadas ao longo do terreno; entre estas, algumas caíram na beira do caminho, outras, em solo pedregoso, diversas entre os espinhos, mas somente algumas caíram em terra boa”.

O texto é tão rico que, ao longo da História da Teologia Cristã, suscitou, no coração de inúmeros teólogos, diversas hipóteses. Para muitos Padres da Igreja, por exemplo, “a beira do caminho, o solo pedregoso e os espinhos, representam as cidades de Corozaim, Betsaida e Cafarnuam que, instaladas em seu comodismo, rejeitaram a Pregação do Reino, proposta pelo Mestre Jesus”.

Mas, e para nós, o que significa esta imagem bíblica? Significa que, independente do tipo de terra que há dentro do nosso eu batismal, Deus quer, em Jesus, abrir as comportas da nossa existência, tal como faz uma terra boa, quando sente ser visitada por uma insignificante semente.

A semente é a Palavra de Deus. Tantas vezes desprezada, abolida, asfixiada por nossa covardia batismal de não querermos ser, o que de fato somos: discípulos e missionários. No início, pequena, discreta, quase imperceptível, porém, tal qual uma semente cresce, a Palavra também cresceu, fez-se carne e habitou entre nós. Aceitar a Palavra é fazer o que faz com a semente, a terra boa: abrir-se. Crer no que escutou, experimentar o que creu, celebrar naquilo que acreditou, tornaria esta semente muito mais visível e conhecida, neste mundo tão dilacerado, não pelas diferenças, mas pelo indiferentismo.

O terreno é o homem, é a humanidade, é cada um de nós, que, descendo ao mais profundo do nosso eu, podemos decidir pelo acolhimento da semente ou pela expulsão da mesma.

Deus é assim, muito parecido com a imagem da semente. Ora, que agricultor se anima imensamente, por ocasião da aquisição das sementes? Difícil, pois são apenas grãos. A alegria lhe vem quando a semente, apodrecida e morta, desponta numa planta. Aí aparece nos lábios do sofrido agricultor um mar de esperanças, porque logo mais virá o fruto.

Assim se dá com a força magnetizante da Palavra: ao entrar em nossa vida, introdutoriamente é lenta, morosa, embora singular e marcante; mas seu brilho, seu mel, sua real magnitude requerem anos para crescer e instalarem-se em nós, até o dia de entendermos que nascemos para Deus, da mesma maneira que a semente nasceu para o terreno.


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