A Finalidade da Voz! (Jo 1,6-8.19-28)


Para entendermos a proposta da mensagem evangélica de hoje, precisaremos descer aos porões do contexto histórico da Palestina do fim do primeiro século do Cristianismo.

O povo vivia aprisionado a um sistema político corrupto e a um sistema religioso, hipócrita e alienador; a carga tributária era altíssima, todos os palestinenses sabiam perfeitamente que eram submissos ao Império Romano. Este, por sua vez, descaradamente, oprimia os pobres, torturava os questionadores e escravizava os que se achavam valentes. Mas, em meio a este contexto de dor e sofrimento, uma expressão ainda lhes era muito cara: a “Vinda do Messias!”. Precisamente porque, com Ele, a liberdade seria devolvida, a escravidão seria abolida e os sonhos de todos os israelitas poderiam voltar à normalidade de suas vidas.

Ora, se o recente enviado que nos chegou, pensavam eles, nos veio da parte de Deus, aliás, o texto é enfático: “Apareceu um homem enviado por Deus, seu nome é João”, então, chegou até nós o que tanto esperávamos: a Liberdade! E aqui, liberdade entendida como luz capaz de clarear os porões escuros de vidas que deixaram de sonhar, de amar e de viver.

Mas, o enviado não poderia ser desleal; afinal de contas, chega de tantas deslealdades. Por isso mesmo, o enviado deu sua prova inicial: “Eu não sou o Messias”. E, como aluno e filho do deserto, João entendeu, logo cedo, que a beleza de uma vida começa no reconhecimento do que se é: “Eu sou apenas uma voz que clama no deserto!”.

Então, ele não era a Luz, mas apenas uma lâmpada; nunca fora o Messias, mas uma voz, nem tampouco um Profeta, pois este morava nos arredores do Templo, enquanto que João morava no silêncio do despojamento (deserto). E foi assim, sendo apenas o que deveria ser, e fazendo bem aquilo que o Senhor lhe ordenara, que João tornou-se o maior entre os profetas!

E, como este simples homem chegou a tal patamar? Sendo apenas uma voz! A voz, enquanto instrumento relacional, supõe ouvintes, a fim de que, ouvindo a mensagem, creiam e mudem de comportamento. A voz não tem rosto, nem beleza ou feiúra; ela quer apenas transmitir conteúdos, ser ponte para um oráculo. A voz é para a mensagem o que o leito representa para as águas do rio: passagem!

E, tomando como lema o refrão escriturístico, no capítulo 40 do Profeta Isaías: “Endireitai os caminhos do Senhor”, ele (João) sabe, perfeitamente, que precisa fazer com o povo o que, no passado, Iahweh ordenou ao Profeta Isaías: trazer de volta os israelitas, até então presos na Babilônia.

Hoje, em diversos lugares do mundo, veneramos João Batista, vocacionado que se tornou voz, e voz que se tornou escuta esponsal e fonte de outros chamados. Peçamos ao Senhor a Luz verdadeira que desperte em nós o mesmo desejo e o mesmo ardor que moviam a voz estridente e questionante da Judeia.

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