A Festa da Transfiguração! (Mt 17,1 – 9)

 


Certamente os discípulos experimentavam, na própria carne, o que hoje repetimos a uma só voz: “Que vida chata, todo dia é a mesma coisa”. O cansaço pastoral e missionário recaiu sobre eles, o descrédito já podia ser vislumbrado, e aquele encanto, presente na primeira hora de encontro com o Mestre, parecia não existir mais. E por quê?

Exatamente porque o viver cristão, sob muitos aspectos, não se distingue do viver terreno, nós também, que nos apaixonamos por Jesus, enfrentamos, todos os dias, o peso das estações, o cansaço dos meses, a escuridão dos anos. Nenhum discípulo poderia jamais alimentar, dentro de si, a vã filosofia de crer que o caminho do Reino está sempre iluminado e facilitado. Não!

A vida cristã também é feita de planície, de rotina, de concretude, com uma diferença: porque miramos em Jesus, decidimos ser o que somos, por causa do seu amor. Por isso, inúmeras vezes, Ele, através do seu Espírito, pode elevar-nos das planíces aos planaltos, do ordinário ao extraordinário, do concreto e quântico ao absoluto e numinoso, da valeta criatural e insuficiente aos píncaros daquele que é Criador e eterno. Dessa maneira, podemos entender o que significa a Festa da Transfiguração!

Quando, no compasso da nossa vida ordinária, o peso quiser instalar-se e domar o norte da nossa existência, lembremo-nos: Deus existe e, em Jesus, podemos experimentar, já aqui e agora, ainda que sob o véu do Sacramento, Sua presença gloriosa e iluminada. Portanto, se grandes são nossos problemas, se pesadas são nossas cruzes, se incontáveis são as mesmices enfrentadas todos os dias, nas idas e vindas por nossa cidade, mesmo assim, Deus nos oferece, em Jesus, seu Tudo, a capacidade de subir aos píncaros mais altos, para avolumar não nosso orgulho e autossuficiência, mas nossa Fé, Esperança e Caridade.

Hoje, caso olhássemos o mundo, logo concluiríamos: “Não tem mais jeito, tudo está perdido, não há mais solução”. Porém, se cremos no Mistério da Festa que hoje celebramos, percebemos que há jeito para o mundo, que é possível atingir o extraordinário no ordinário da vida, que quem está com Jesus consegue escalar da planície ao planalto, da terra ao céu, das injustiças desumanas e irracionais à justiça que gera fraternidade e partilha, do eu indiferente, que adoece e morre, ao eu pessoal que um dia, pela força do amor glorioso, será tudo em Deus.

Naquele dia, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, mas hoje, caso Ele precisasse fazer o mesmo percurso e quisesse contar com você, aceitaria? Sim ou não? E você sabe qual é uma das maiores belezas da Liturgia Cristã? É que nela nós não ensaiamos um fato do passado, nem tampouco relembramos uma memória antiga, mas, pela ação Trinitária, a memória é atualizada e aquilo que no plano dos séculos é antigo, no plano da Fé e da História torna-se atual. Então, hoje Jesus quer tomar-nos pela mão, quer tirar-nos da mesmice, quer que entendamos que sem Ele a vida é um tédio, mas com Ele a vida é um dom e pode ser plenificada.

 

 

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