A audição do coração! (Lc 1, 26 – 38)

 

Nas vésperas do Natal do Senhor, encontramo-nos diante de uma cena evangélica que não quer ser na história um fato histórico; antes, quer apenas catequizar. A cena, relatada no Evangelho, encontra-se numa aldeia da Galileia chamada Nazaré. Portanto, encontramo-nos numa terra distante e estranha, pois, permanentemente, mantinha contato com populações pagãs e, por isso mesmo, a Galileia era considerada, por todos os judeus ortodoxos, como: região ateia e fria, lugar de onde não poderia provir nada de bom. Se a região era assim, mais desqualificada era, no entanto, a aldeia: Nazaré! Que representava Nazaré para a geografia da Palestina? Nada! Nunca fora citada na religiosa história judaica.

Entretanto, o curioso é que a jovem que está no centro desse episódio evangélico era “uma virgem desposada com um homem chamado José”. Maria, a jovem de Nazaré, discreta e resoluta, sabia que não podia alimentar no coração altas pretensões, pois, se estranha e fria era a região em que ela habitava, se esquecida e pobre era a sua aldeia, Maria supunha que, também ela, deveria levar uma vida escondida no anonimato, na pobreza e na simplicidade.

Mas, como sempre fizera na história da Salvação, não seria agora que Deus faria diferente. Sim, a fim de que se cumprisse o que está nas Escrituras, sobretudo na literatura veterotestamentária, Deus realizou tal qual na vida de Maria: “E do lixo ele retira o pobrezinho para fazê-lo assentar-se entre os nobres, num lugar de muita honra e distinção” (I Sam 2, 8).

Entre inúmeros adjetivos atribuídos a Maria, neste quarto domingo do Advento, queremos ressaltar apenas um: “Discípula da Palavra”. Toda a tradição judaica, desde cedo, entendeu que a palavra, para chegar ao coração, precisa passar pela sendas da audição. Não esqueçamos dos oráculos, outrora proferidos em nome do Senhor Iahweh, para que o povo abrisse os ouvidos do coração. E, se antes o Senhor convocava homens, na plenitude dos tempos Ele mesmo continua a convocar e a dar o primeiro passo nessa nova primavera, convocando e chamando uma mulher. Nome? Maria. Endereço? Nazaré, vila pobre e abandonada. Região? Galileia, isto é, terra dos desconhecidos e frios.

Por que Deus não visitou as ruas religiosas de Jerusalém? Por que Ele não chamou mulheres com a marca da promessa, como, por exemplo, as mulheres dos sacerdotes ou das autoridades reais? Por que Deus preferiu escolher uma região fria, uma aldeia pobre e uma menina esquecida? E, neste caso, a Escritura pode tranquilamente dialogar consigo mesma: “E do lixo ele retira o pobrezinho para fazê-lo assentar-se entre os nobres, num lugar de muita honra e distinção” (I Sam 2, 8).

Estamos às vésperas do Natal, e, tal como Maria, podemos carregar potencialmente a mesma sensação: não temos o direito de alimentar altos sonhos, pois vivemos num bairro simples e administramos nossa pobre vida de modo muito ordinário e simples também. Mas, mesmo vivendo na simplicidade, somos convidados a exercitar a audição do coração para ouvir Deus que quer nos falar.

Ainda que as frustrações da nossa vida atual sejam tão desconexas e sem solução, ainda que o nosso endereço territorial não seja tão cotado e bem visto, Deus continua caminhando em nosso meio, se exercitamos, no itinerário da nossa vida, a audição do coração. Ele poderá bater à nossa porta, a qualquer momento, e nos fazer um convite, como, de modo semelhante, no passado, Ele fizera a Maria. Entremos nessa aventura, e abracemos essa causa, para vivermos bem o Natal do Senhor.

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